22/01/2019

PARA SEÇÃO "CARTAS", REVISTA PIAUÍ

Prezado Editor de Piauí,

O professor e filósofo Ruy Fausto, em Sofística e Polícia Política, edição de Jan/19, responde a críticas do também filósofo Olavo de Carvalho com argumentos que, em sua maioria, não me tocam. As exceções ficam por conta de duas ideias em que ele parece acreditar. A primeira é a de que Bolsonaro é um ideólogo no pior sentido e que vai nos levar para o abismo do controle estatal de extrema direita. Ou seja, se junta ao discurso da esquerda "acachapantemente" perdedora que tenta vender um futuro ameaçador cujo presente nem começou. Em momento algum, o professor aborda o fato de que a escolha de Bolsonaro se deu exclusivamente (é minha interpretação e convicção) pela incompetência política e econômica e a canalhice dos indivíduos e agremiações partícipes que compuseram a esquerda petista no poder por 13 anos e que vão ficar entranhadas na estrutura do Estado por anos. A maioria dos eleitores não optou, não quer e não apoiará um governo menos ou mais fascista, apenas gritaram: "Chega! Depois a gente resolve o item 2". 

A segunda exceção, que se percebe nos meandros dos argumentos, é que parece haver do professor um sentimento de alívio de consciência do tipo "fiz minha parte", "eu avisei", como a querer se justificar perante a opinião alheia. Ora, a direita, o neoliberalismo, como queiram, chegou ao poder pela total ausência de alternativa. Onde estavam os próceres desta esquerda tão moderada com a qual o professor se identifica que não levantou bandeiras contra as desigualdades e a favor da "economia solidária" como é seu desejo utópico? Onde estavam os intelectuais e ativistas que perceberam a fraude Lula e pularam fora do barco? Por que eles não construíram uma grande frente centro-esquerda comprometida com honestidade e transparência como ficou evidente nas manifestações das ruas e nas redes sociais ser o desejo dos brasileiros?

Professor, uma boa olhada no espelho pode mostrar as marcas da hipocrisia. Um bom creme esfoliante pode trazer de volta uma cara limpa para vir nos ajudar a ajustar propostas que talvez não se ajustem ao Brasil que sonhamos. 

Paulo Vogel