quarta-feira, julho 21, 2021

ROGER SCRUTON, E O PTdoG – (1944/2020)


Entre os mais de seus 30 livros, Roger Scruton[1], inglês, filósofo contemporâneo, está “Tolos, Fraudes e Militantes” que acabo de ler. Nele Scruton procura desmascarar as proposta de alguns pensadores que integraram a “Nova Esquerda”[2] no século XX que pretendia, e ainda pretende, consertar o homem e a civilização. Uma das conclusões a que se chega após a leitura é que a intelectualidade ungida é composta de loucos, neuróticos, psicopatas, e quando não, no mínimo dos mínimos, hipócritas cínicos.

De todos os capítulos – quase todos de leitura árida - dois vou referenciar aqui. O primeiro é o que trata de “Guerras culturais no mundo todo: a Nova Esquerda de Gramsci a Said”. Nele Scruton começa lembrando o objetivo síntese de suas ideias – elaboradas no cárcere, é bom lembrar – era o de substituir a cultura burguesa por “uma nova e objetiva hegemonia cultural”. O que passa na cabeça de alguém com essa pretensão? O que ele imaginava ser “objetiva”? Como se pode obter, em qualquer tempo e lugar, “hegemonia cultural” quando em cada canto do mundo o desenvolvimento da cultura se deu sobre a heterogeneidade dos seres humanos e em função de circunstâncias absolutamente particulares e únicas? O nível de arrogância, de pretensão sobre deter a verdade, e de um absolutismo intelectual que chega ao cume além do qual ninguém conseguirá ir além.

Para qualquer mente sana in corpore sano, tal proposição bastaria para deixar tal indivíduo no limbo da história, mas não foi o que aconteceu. Gramsci se tornou o guru, o “grande mestre”, o tutor maior dos perdedores, dos carentes de um guia intelectual, mesmo que não compreendam razoavelmente o que ele diz. Basta gritar “abaixo a burguesia!!!” e seguir marchando de iPhone na mão. Mas este não descarte, ou, resgate extemporâneo, se deu, com especial intensidade, no Brasil. Gramsci está nos fundamentos das ideias e ações de PSOL e, em particular, do PT. Tendo isto como fato, passo a não me interessar mais em analisar Gramsci, mas apenas as ideias deste “intelectual” que estão no âmago da conduta daqueles dois partidos que hoje diariamente e intensamente tentam nos empurrar para o precipício da escuridão utópica que eles defendem.

Passo, então, a me referenciar apenas ao PT do G (Partido dos Trabalhadores de Antonio Gramsci) sempre que citar, daqui em diante, alguma das ideias e sugestões daquele prisioneiro italiano que se tornarem práticas de seus membros. Passagens extraídas do texto de Scruton estarão entre aspas duplas, e se contiverem citações de Gramsci, estas estarão entre aspas simples e itálico.

Entre as maluquices do PTdoG, está a de que seus dirigentes acham que da união entre intelectuais comunistas e as massas (...) ‘emergirá uma nova forma de governo por consenso’.” Para o sujeito minimamente realista que pergunta “como os conflitos serão acomodados ou resolvidos”, eles não têm resposta. Mas é uma enganosa constatação de ignorância. Todos sabemos que o cidadão pode ser maluco, mas não tão burro. Não à toa, portanto, o PTdoG devota parte considerável de sua utopia “ao papel dos intelectuais, afirmando diretamente não apenas que são os verdadeiros agentes da revolução, mas também que devem sua legitimidade à ‘correção’ de suas opiniões”.

Para os “petistas do G”, não há necessidade nenhuma de integrar o “proletariado”. Você pode continuar a ser um bajulador do seu intelectual de estimação, ou cumprir sua “desobrigação” em alguma repartição pública, ou, melhor ainda, “continuar em qualquer cargo confortável que lhe tenha sido oferecido e trabalhar pela derrota da hegemonia burguesa”, mas todos, ressalto, enquanto, hipocritamente, “aproveitam seus frutos”.

Os “petistas do G” desejam um governo que lhes proteja das injustiças da vida. Eles querem saúde, alimento, moradia, segurança e lazer, tudo oferecido por um Estado centralizador. Para tal satisfação estão dispostos a abrir mão da propriedade, as esquecem que quanto mais dependentes, mais limitados serão seus direitos e sua liberdade. E por uma razão simples que eles fingirão não enxergar até alguns milhões de “dissidentes” serem assassinados como sempre o foram na história: “os objetivos, libertação e justiça social, não são compatíveis”.

O planejamento central reivindicado pelos próceres do PTdoG, é o melhor caminho para a criação de escassez, privilégios de classes, mercado negro, sobrevivência do mais forte (literalmente) e injustiça – para dúvidas quanto a esta afirmação, consultar a história da economia e da vida soviética depois de 1917.

O capítulo encerra com Scruton diagnosticando que “entramos em um período de suicídio cultural, comparável ao sofrido pelo Islã após a ossificação do Império Otomano”.

O último capítulo, “O que é a direita?”, é o segundo do qual trago aqui algumas reflexões. Pouco o texto se dedica a dar uma resposta. A única que Scruton apresenta é que uma vez que um indivíduo é “identificado como de direita (...) seu caráter é desacreditado e sua presença no mundo é um erro”. Independente desta “falha”, no meu entender, ele coloca algumas cerejas neste indigesto bolo que estão pretendendo nos servir em futuro próximo.

De minha parte, o que me chamou a atenção ao longo de toda a obra é falta gritante de uma explanação sobre as bases de um sistema socinista (socialista-comunista). Scruton confessa que buscou, “em vão, nas obras” de diversos autores “uma descrição de como a “igualdade dos seres” defendida em seus atormentados manifestos” poderia ser alcançada. O máximo a que se chega é à utopia das utopias, “uma sociedade da qual tudo que a torna possível – leis, propriedade, costumes, hierarquia, família, negociação, governo, instituições – foi removido”.

A ideologia socinista ou “a ‘práxis revolucionária’ apenas nos leva a destruir o que não sabemos substituir” sem nos dar a mínima pista, “em termos concretos, o fim para o qual trabalha”.

O que fato incontestável é que “a tentativa de conseguir ordem social sem dominação inevitavelmente leva a um novo tipo de dominação, muito mais sinistra que a deposta”.

E é de Foucault que podemos tirar o lembrete de que “um déspota estúpido pode prender seus escravos com correntes de ferro, mas um verdadeiro político os amarra ainda mais firmemente com as correntes de suas próprias ideias [onde] o elo é ainda mais forte porque não sabemos do que é feito”.

Scruton vai chegando ao final. “O mundo do comunismo é um mundo de dominação impessoal no qual todo o poder está nas mãos de um partido” porque “a ideologia é um conjunto de doutrinas (...) de assombrosa imbecilidade (...) A ideia de ‘ditadura do proletariado’ (...) pretendia pôr fim às indagações, de modo que a realidade não pudesse ser percebida”.

Claramente, estamos lidando com uma necessidade religiosa, uma necessidade plantada profundamente em nosso “ser genérico”. (...) E esse desejo é mais facilmente recrutado pelo deus abstrato da igualdade do que por qualquer forma concreta de compromisso social. Defender o que é meramente real se torna impossível quando a fé surge no horizonte com seus atraentes presentes de absolutos.

Como você chegou até aqui me resta, apenas, esperar que você tenha tirado algum proveito.

 



[1] Na wikipedia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Roger_Scruton

[2] São eles: Eric Hobsbawn (1917/2012), Edward Thompson (1924/1993), John Kenneth Galbraith (1908/20060, Ronald Dworkin (1931/2013), Jean-Paul Sartre (1905/1980), Michel Foucault (1926/1984), Jürgen Habermas (1929/...), Louis Althusser (1918/1980), Jacques Lacan (1901/1981), Gilles Deleuze (1925/1995), Antonio Gramsci (1891/1937), Edward Said (1935/2003), Alain Badiou (1937/...), e Slavoj Žižek (1949/...).

 

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