16/03/2019

A CONSCIÊNCIA DOS EXLUÍDOS - Parte II


Assim como o globo terrestre se mantém girando infinitamente num só sentido, a história da humanidade não retrocede. Uma vez adotada uma nova solução, uma nova tecnologia, uma nova maneira de fazer qualquer coisa, não voltamos a fazer como antes, independente do resultado que esteja sendo obtido com a novidade. Obviamente estou considerando que tanto o planeta quanto o ecossistema não sejam abalroados por uma catástrofe monumental (um asteroide vir a colidir com a Terra, ou uma era do gelo vir a destruir as condições de vida atuais) e continuem a se comportar como sempre tem sido. Considerando estas exceções, estes são dois dos raros (se é que existem outros) sistemas não cíclicos, pois, de resto, tudo é cíclico na natureza e no próprio universo.

A evolução(*) da humanidade não olha para trás, não se arrepende. Uma vez adotada uma nova solução, adeus às vigentes até então. Uma vez que o homem domou o cavalo, o próximo passo foi criar a carroça. Uma vez inventado o motor a combustão que possibilitou o automóvel, o avião veio a seguir e nem mesmo seu uso na revolução de 32 levando Santos Dumont ao suicídio (é o que se pensa), foi capaz de fazer a humanidade voltar à uma época sem máquinas voadoras. O sentido à frente, sem olhar para um retrovisor imaginário, é inexorável tanto na tecnologia quanto nos costumes. Uma outra faceta desta realidade é o que alguém já observou quanto à evolução tecnológica: se pode ser feito, será feito.

Se olhamos para a humanidade em sua essência ao longo da história, concluímos que muito pouco mudou. Nossas necessidades continuam básicas e as mesmas de milênios atrás: aquecimento, abrigo contra intempéries e inimigos, e alimento. Cito Montaigne: "A natureza exige muito pouco para nossa conservação, tão pouco que foge aos golpes possíveis da má sorte". O que mudou foi a forma de suprir tais necessidades.  Entretanto, a mudança de forma veio acompanhada da complexidade. Para o homem nômade, caçador-coletor, a simplicidade de obtenção (independente da dificuldade) era o padrão. 

A partir de um determinado momento, com o advento da agricultura, surgiu o conceito de trabalho, ou seja, um compromisso sistemático de obrigação de fazer algo para, em um processo de troca, um grupo pudesse obter a renda que propiciasse a satisfação daquelas tais necessidades básicas.

De lá para cá, o tal processo de evolução só fez tornar gradativa e sutilmente mais difícil ter uma atividade de trabalho produtiva o suficiente para todos. Uma nova divisão de categoria de humanos começa a se desenvolver: os que sabem e os ignorantes, os aptos e os inaptos, os incluídos na dinâmica social e os excluídos, os párias. 

Até pouco antes do fim da idade média(**), a troca de informação entre diferentes povos, a incorporação de novas soluções, se dava em unidades de tempo muito longas. E mesmo com o desenvolvimento tecnológico da navegação na Renascença e depois, a unidade de tempo de comunicação era da ordem de meses. Antes do telégrafo e do rádio, inventos do século XIX , a informação ganhou velocidade com os primeiros jornais impressos em meados do século XVIII. A unidade de tempo no fluxo da informação se reduz a semanas (ainda dependente da navegação). É a partir de então que o cidadão - não mais um indivíduo qualquer, mas integrante de uma massa que começa a ter recursos para se manifestar e ser ouvida -, tem acesso a informações que antes lhes eram de total inacessibilidade. Se até então ele se via um excluído graças a uma inevitabilidade da vida, a um resultado infeliz da conjunção dos astros e estrelas no instante de sua concepção ou nascimento, com o acesso à informação ele substitui a aceitação pela consciência de excluído, não mais pelas forças celestiais, mas pelas forças detentoras do poder que lhe obstaculizam de todas as maneiras ascender socialmente e ter acesso às modernidades.

É no início do século XX que surgem as transmissões via rádio. As últimas da política, da economia, da cultura agora à mão em um botão de sintonia. Minutos depois de, a milhares de quilômetros de distância, ter sido decretado o fim da guerra, as pessoas puderam sair às ruas para comemorar (Ouça Heron Domingues no Repórter Esso). É o máximo! Agora ele sabe que não está sozinho em suas percepções e frustrações. Existem outros excluídos como ele! A consciência de sua condição agora é real e universal.  Mas o melhor estava por vir entre os finais das décadas de 1940 e 1970. A televisão, a combinação da transmissão de voz e imagem! E agora com um toque especial: a verdade de sua condição social não só é real e universal, mas é ao vivo e em cores! 

Encerrando por hoje, acrescento o que aconteceu nesta semana trágica. O atentado na escola de Suzano - exemplo claro de reação à frustração - e a chacina na Nova Zelândia - exemplo emblemático do "ao vivo e em cores".

Até o próximo sábado.


(*) O sentido de evolução aqui usado é o de aprimoramento da técnica em termos de produtividade, não implicando obrigatoriamente em melhoria do ser humano ou de sua qualidade de vida.

(**) Idade Média: Período da história entre os séculos V e XV d.C., marcado pelo fim do Império Romano.

(***) Renascimento/Renascença: Período da história entre o final da Idade Média, meados do século XIV, e final do século XVI.  



As imagens aqui inclusas foram obtidas na internet e sem identificação de autor. Caso você seja autor de alguma, por favor me informe para que possa incluir o crédito. 


09/03/2019

A CONSCIÊNCIA DOS EXCLUÍDOS - Parte I

Em quase toda a história da humanidade os indivíduos estiveram (e estão) divididos em duas categorias básicas: dominadores e dominados, ou opressores e oprimidos, ou senhores e escravos, ou oligarcas e povo, ou realeza e plebe, ou privilegiados e excluídos.

Nos primórdios, na idade da pedra, antes dela e um tanto depois, é razoável imaginar que nossos ancestrais trogloditas não tinham o que desejar ou invejar. Quaisquer pequenos grupos caçadores-coletores que se deparassem no meio da savana africana, ao mesmo tempo em que assumiam uma atitude defensivo-agressiva perante o outro num primeiro momento, depois de superadas as incertezas deviam perceber serem essencialmente iguais em aparência, modo de vida, necessidades, dúvidas e medos.  

Esse quadro pode não ser o melhor instantâneo de um passado onde a humanidade ainda não conhecia a propriedade privada e todos os indivíduos partilhavam de um similar modo de vida, mas qualquer outra visão será muito semelhante no reconhecimento de que houve uma época em que não havia o que almejar além de garantir o sustento e se manter vivo, livre da fome das feras predadoras do homem.

A escassez de alimentos e/ou uma eventual drástica mudança climática obrigaram os humanos a cultivar a terra e a nela se fixar por longos períodos para produzir no hoje o alimento de amanhã. É aí que as diferenças se manifestam e passam a reger, ou no mínimo, interferir nas inter-relações tribais, pois houve os que viram no trabalho a saída para a sobrevivência e aqueles que, por preguiça ou incapacidade, apenas usufruíram do trabalho alheio. Não à toa, tal mudança é considerada como a primeira revolução na estrutura social até então vigente. Daí para a adoção do conceito de propriedade, tanto da produção, quanto da terra, foi a consequência óbvia, e associada ao excedente de produção, a humanidade, sem querer, criou o "mercado", onde produtores aumentavam suas posses fazendo escambo de seus produtos por outros de seu desejo.

As cidades - no princípio pequenos aglomerados - surgiram para atender a necessidade de pontos de troca e de oferta de serviços agregados (transporte de mercadorias, produção de ferramentas, sementes etc). 

Uma pequena digressão. Me vem à mente um dito popular, mas revelador de quem saiu no lucro, de que na busca do ouro quem mais obteve proveito foram aqueles que garimparam oportunidades de comercializar produtos e serviços que atendessem as necessidades dos mineiros. Seria mais ou menos isso que ocorreu na antiguidade? Voltemos ao tema.

Impossível se torna a participação de todos como nos primórdios das cavernas, quando um grupo era uma família (ou pouco mais que isso), sendo fácil de controlar e identificar transgressores. Quando surgem os agrupamentos, "todos" passa a significar um contingente de indivíduos, ou melhor, de tribos que, em conjunto, formam um corpo difuso, confuso, desordenado e descontrolado.

O advento das cidades exigiu a elaboração de acordos sociais, de regras regulatórias para um razoável e estável convívio de indivíduos e para que as trocas de mercadorias e serviços ocorressem num ambiente de equilíbrio entre as partes envolvidas nas transações. Indivíduos mais ousados, mais ambiciosos, almejaram o controle e assumiram a tarefa de legislar sobre a massa, controlar sua aplicação e punir os transgressores. 



Nascem os sistemas políticos e surge o que conhecemos como civilização, uma alternativa à barbárie como solução de conflitos (há milênios perseguimos a utopia de extirpá-la por completo) em troca da obediência a códigos de conduta que implicassem no reconhecimento dos direitos do outro. Mas controlar sempre foi uma tarefa inglória pois há muitas maneiras de evitar ser pego nas transgressões. Tal reconhecimento abriu a cabeça de alguém que viu no transcendente - o homem desde sempre temeu e teme aquilo para o quê não encontra explicação - um útil mecanismo de auto-regulação do comportamento. Nos primórdios, ameaçar com a ira dos deuses e, mais tarde, com o fogo dos infernos para aqueles que pretendessem violar as normas.  

Considerando o aspecto sistêmico, os humanos passam a se dividir entre os que mandam - os que têm a força - e os que obedecem. Acredito que por milênios tal condição não mereceu qualquer questionamento. Foi um período em que "assim é a vida" e estamos conversados. Não por vontade, mas pela falta de recursos de comunicação para aglutinar os cidadãos em torno de uma ideia que os levasse a uma revolta contra o status quo. As primeiras construções de sistemas políticos se deu com base no princípio de que alguns humanos eram mais humanos que outros, que alguns eram eleitos pelos deuses e deuses não eram questionados: senhores são senhores e vassalos são vassalos. Tal aceitação, portanto, não gerava qualquer frustração e sentir-se excluído ou desconsiderado não tinha o menor sentido. Simples assim.  Hoje, não mais.

O poder da Igreja Católica(*), em especial, vai se mostrar absoluto na idade média, a tal ponto que a primeira providência de um proclamado Rei era se ajoelhar aos pés do Papa para lhe pedir uma abençoada aprovação. Tal providência era a garantia, através do aval papal, que ao morrer teria seu lugar no céu ao lado de Deus. Os reis, neste pormenor, eram tão humanos quanto seus súditos e como tal tementes ao transcendente.

Não sou historiador. O máximo que me atribuo é a capacidade de olhar para o passado e tentar descobrir o que fez com que a história (qualquer que seja o período considerado) tenha sido do jeito que foi. A partir daí, avaliar o processo que nos fez estar onde estamos e, consequentemente, ter alguma ideia das consequências sobre o futuro.

A síntese das sínteses que apresentei nos parágrafos acima, com todos os erros históricos contidos, tem o único intuito de preparar uma base referencial de um mundo do passado para poder apresentar algumas ideias sobre o ser humano em nossos dias sob a égide da nova era digitrônica.

Até o próximo sábado.

(*) Só a existência de um período marcado pela Inquisição bastaria para realçar tal poder, mas  neste link você tem acesso a um quadro geral da Igreja na Idade Média.




As imagens aqui inclusas foram obtidas na internet e sem identificação de autor. Caso você seja autor de alguma, por favor me informe. 






22/01/2019

PARA SEÇÃO "CARTAS", REVISTA PIAUÍ

Prezado Editor de Piauí,

O professor e filósofo Ruy Fausto, em Sofística e Polícia Política, edição de Jan/19, responde a críticas do também filósofo Olavo de Carvalho com argumentos que, em sua maioria, não me tocam. As exceções ficam por conta de duas ideias em que ele parece acreditar. A primeira é a de que Bolsonaro é um ideólogo no pior sentido e que vai nos levar para o abismo do controle estatal de extrema direita. Ou seja, se junta ao discurso da esquerda "acachapantemente" perdedora que tenta vender um futuro ameaçador cujo presente nem começou. Em momento algum, o professor aborda o fato de que a escolha de Bolsonaro se deu exclusivamente (é minha interpretação e convicção) pela incompetência política e econômica e a canalhice dos indivíduos e agremiações partícipes que compuseram a esquerda petista no poder por 13 anos e que vão ficar entranhadas na estrutura do Estado por anos. A maioria dos eleitores não optou, não quer e não apoiará um governo menos ou mais fascista, apenas gritaram: "Chega! Depois a gente resolve o item 2". 

A segunda exceção, que se percebe nos meandros dos argumentos, é que parece haver do professor um sentimento de alívio de consciência do tipo "fiz minha parte", "eu avisei", como a querer se justificar perante a opinião alheia. Ora, a direita, o neoliberalismo, como queiram, chegou ao poder pela total ausência de alternativa. Onde estavam os próceres desta esquerda tão moderada com a qual o professor se identifica que não levantou bandeiras contra as desigualdades e a favor da "economia solidária" como é seu desejo utópico? Onde estavam os intelectuais e ativistas que perceberam a fraude Lula e pularam fora do barco? Por que eles não construíram uma grande frente centro-esquerda comprometida com honestidade e transparência como ficou evidente nas manifestações das ruas e nas redes sociais ser o desejo dos brasileiros?

Professor, uma boa olhada no espelho pode mostrar as marcas da hipocrisia. Um bom creme esfoliante pode trazer de volta uma cara limpa para vir nos ajudar a ajustar propostas que talvez não se ajustem ao Brasil que sonhamos. 

Paulo Vogel

15/01/2019

MIOPIA & HIPOCRISIA

Tem chegado a meus ouvidos e olhos análises de "especialistas" sobre o que está acontecendo no mundo no âmbito dos sistemas políticos e das manifestações populares. Sem exceção, um misto de miopia e hipocrisia. As interpretações passam por culpar o neoliberalismo, o radicalismo de direita, a decadência do ocidente, o trumpismo e, em nosso quintal, o bolsonarismo, a ditadura da justiça (leia-se Moro), a democracia fake do petismo e por aí em diante.

Todos ignoram que as regras de convivência/relacionamento já foram viradas de ponta cabeça. Para não elocubrar demais, podemos considerar como início desta virada a queda do muro de Berlim e na consequente globalização da produção industrial, e como marco do final da cambalhota, o advento das novas ferramentas de comunicação que iniciaram, no meu entender, a era digitrônica.

Os modelos de sistemas políticos, qualquer um deles, foram concebidos para uma era em que o poder político detinha os meios e as ferramentas para manter a plebe, o povo, os súditos de todas as estirpes dentro dos limites de atuação desejáveis, qual seja, de baixíssima chance de manifestação de vontade, de dizer não, e de rebelião. Ao longo dos séculos isto foi mantido tanto por ditaduras mais ou menos sanguinárias, ou pela hipocrisia do voto nas democracias (ou arremedos de democracias) pós feudalismo. 

Uma das novas características é o abismo colossal entre os sistemas de comunicação existentes na República de Platão e o mundo digitrônico contemporâneo, abismo que continua e continuará se aprofundando dia-a-dia. O poder não tem mais o tempo e a distância a seu favor, elementos fundamentais para transformar em "favas contadas" as ações carregadas, principalmente, de intenções inconfessáveis. No segundo seguinte de uma ação a reação se espalha na Rede e um movimento de repulsa, ou ao contrário, de aprovação a ações confessáveis, se estabelece e agiliza o desfecho. Para exemplo, reporte-se às manifestações sabatinas na França forçando Macron a rever suas decisões e "pedir penico", dizem os amigos no bar e à pressa com que ingleses se colocaram numa sinuca de bico decidindo, por parca margem, sair da UE.

Uma segunda característica é que as nações não são governadas por um poder politico centralizado ou federativa e moderadamente descentralizado. O poder político agora está a serviço dos grandes conglomerados empresariais em todas as áreas de atividade, quer industriais, quer comerciais, quer de serviços. As empresas familiares de todos os portes acabaram e eventuais heroicas resistentes estão ladeira abaixo em direção a um fim melancólico. Neste contexto, estamos na era dos acionistas pulverizados e dos executivos super-remunerados.

Não bastasse, como terceira característica, organismos multinacionais como ONU, OEA, OTAN, Banco Mundial, União Européia, estão perdendo relevância e tendo seus objetivos de existência questionados por nações ao redor do globo. No caso da UE, outras nações só estão à espreita do desfecho do Brexit para decidir que caminho tomar. O que quero salientar com isto é: tudo passou a ser questionável, ou por ser velho e inadequado, ou, pior, por ser novo e na dúvida quanto à eficácia, rejeitado.

A quarta, e principal característica, é a incontrolável explosão da informação e a consequente fragmentação do conhecimento. Não sabemos de nada por inteiro, mas nos achamos capazes de opinar sobre tudo. E enquanto não é mais possível manter uma verdade em pauta por períodos longos o suficiente, a verdade oposta nos chega num bip sonoro na palma da mão.

Vou encerrar por  aqui deixando dois vídeos que exemplificam o que acabo de afirmar. Antes de assistí-los, responda estas duas perguntas:

1 - O Brasil está desmatando as florestas em ritmo acelerado e não está dando aos índios as terras que lhes são de direito?

2 - O planeta está superaquecendo e os objetivos do acordo de Paris precisam ser urgentemente alcançados?











Até um par de anos atrás, as informações apresentadas por Evaristo de Miranda, chefe da Embrapa Territorial em sua palestra no evento O Grande Desafio do Século XXI, teriam sido do conhecimento apenas da plateia presente. Do mesmo modo, a entrevista do professor Luiz Carlos Molion no programa Canal Livre teria ficado restrita aos telespectadores da Band. Hoje, ambos os vídeos estão no Youtube e sendo distribuídos para uma massa gigantesca de pessoas por whatsapp e blogs como este. Enganar a todos ainda é possível, mas por um tempo muito curto.

28/12/2018

MENSAGEM DE ANO NOVO

A melhor mensagem de ano novo para os brasileiros, em minha opinião, está contida no artigo do jurista Modesto Carvalhosa para a revista Crusoé. 

Por questões de direitos de autor e de editor, não posso reproduzi-lo, e mesmo o link abaixo só tem serventia para quem já é assinante da publicação. Mas me sinto na obrigação de sugerir sua leitura para quem deseja um futuro com uma constituição mais justas para todos.

Bom 2019/20/21... para todos.

https://crusoe.com.br/edicoes/35/todo-privilegio-corrompe/