30/03/2019

A CONSCIÊNCIA DOS EXCLUÍDOS - Parte IV

Postagens anteriores: A Consciência Dos Excluídos - Parte I - A Consciência Dos Excluídos - Parte II - A Consciência Dos Excluídos - Parte III

Sentir-se excluído do que quer que seja, não enseja como consequência inevitável, tornar-se um assassino solitário ou em série, um suicida, um traficante, um estuprador ou um bandido de qualquer naipe. É preciso ter uma base, um alicerce, que sirva de sustentação para as ações de revolta. 

A psicopatia(*), para uns, é um distúrbio psíquico (condição adquirida por eventos ao longo da vida), enquanto, para outros, é neurológico (genético). Para o que nos interessa, a origem não tem relevância, apenas sua existência, pois significa que o portador desta condição tem como característica fundamental a total insensibilidade aos sentimentos alheios. É este estado emocional que o faz cometer um leque de maldades sem que sinta o mínimo remorso ou culpa de seus atos cruéis (mais adiante discordo parcialmente desta última conclusão) (**).  

Psicopatas sempre existiram, é uma das alternativas de constituição de um ser humano. Seus atos estão apenas mais expostos nos dias atuais, tanto pelo imediatismo da informação, quanto pela tecnologia, basta nos lembrarmos da câmera transmitindo ao vivo o australiano assassinando pessoas na Nova Zelândia. 

A psicopatia, portanto, vem à frente da frustração. Indivíduos no poder não precisam se sentir frustrados para roubar uma empresa estatal - em benefício próprio e de políticos comparsas ou mandantes -, sem pudor, remorso ou culpa, mas só enquanto não são pegos (depois choram e fazem delação premiada). E no caso de executivos em ascensão meteórica, o estímulo da frustração é facilmente substituído pela ganância, o que lhes facilita enormemente destruir competidores, sem dó nem piedade, no trajeto ao topo (***). Assim como o psicopata não precisa da frustração para se manifestar, o frustrado não carece da psicopatia para mostrar sua insatisfação, basta nos reportarmos às manifestações dos coletes amarelos na França, ou à passeata do 13 de junho de 2016, no Brasil.

Há de existir um "elemento-gatilho", algo que dispara a ação psicopata. Acredito que 99% das manifestações psicopatas são contra alvos não rotulados, ou difusos, não personificados. Tais atos são considerados de interpretação moral subjetiva, dependendo de que lado se está. Para o autor, a justificativa é inocente, do tipo "só estou cuidando dos meus interesses", "se não for eu, será outro", e por aí vai. Apenas não olham para trás, e assim não enxergam as vidas despedaçadas que deixam pelo caminho, o contingente de "almas" destruídas.

Sobra-nos o 1% quando o alvo é a aniquilação de vidas humanas. Nestes casos, o gatilho que dispara a ação e aciona a arma, tem origens mais profundas. No meu entender, está no fundo do sentimento de frustração em se ver vítima de um outro, de um grupo social, econômico, étnico, ou de um governo, ou de uma injusta decisão divina. Seja nos tantos estupradores e feminicistas do cotidiano brasileiro; em Adélio, no caso Bolsonaro; nos dois jovens de Suzano; nos tantos outros aderentes ao Estado Islâmico; ao não tão jovem serial-killer de Cristchurch; em todos estes casos, houve um fato "click", o acionador do interruptor que ligou sinapses com destino certo: acabar com a vida de outro(s). 

O leque de "clicks" de que falo, é de raio infinito. Pode ser uma mulher em uma rua deserta, pode ser uma dada interpretação do texto sagrado, pode ser, nos dias atuais, o hábito de matar personagens em jogos eletrônicos. 

E aqui estou chegando ao fim destas quatro postagens. Tanto no caso de Cristchurch, quanto no de Suzano, minha convicção é a de que os assassinos agiram sob um surto psicótico que os levou para dentro de um jogo de guerra em uma tela de computador (resultado de psicopatia+frustração+estímulo). Em ambos os casos eles se viram atirando em personagens de desenho animado. Mas em Suzano, aconteceu algo mais. Ao perceber a chegada da polícia, o jovem de 17 anos acorda do transe, percebe o terror de seu ato, mata seu amigo e parceiro, e se suicida (por este fato minha discordância quanto a nunca "sentir o mínimo remorso" citado no 2º parágrafo).

Há quem esteja atribuindo "ao lado negro da internet" a razão de tal massacre. É, como se diz, atribuir ao sofá a traição do cônjuge, ao invés de aceitar o direito inalienável, inevitável, do outro decidir o que fazer com o... sofá. Quantos milhões e milhões de crianças têm estado nestes últimos anos à frente de telas de computador por horas a fio assumindo o controle de personagens rambóticos à caça de inimigos saídos da imaginação de mentes, no mínimo, extremamente criativas? Quantos deles estão se transformando em potenciais reais matadores? Que tal olhá-las como crianças felizes com o prazer de estar brincando com o aquilo que o mundo contemporâneo lhes está a disponibilizar?

Quando criança, adorava jogar búlica(****) na beira do rio (minha mãe me pegava pela orelha para ir almoçar). Para ganhar era preciso não deixar que os outros meninos chegassem primeiro na última búlica. A estratégia era "tecar" com força a bolinha de gude de um adversário, mandando-a para o mais distante possível. Nem por isto, quando adolescente ou adulto, me tornei um atirador de bolas de vidro na cabeça dos outros!!!

Até o próximo tema, espero que no próximo sábado!  



(*) Para saber sobre psicopatas .

(**) Em média, entre 1% e 3% da população mundial pode ser classificada como psicopata. Neste artigo da BB, você tem mais informações. 

(***) É interessante o que está acontecendo atualmente com Jorge Paulo Lemman - o mago da meritocracia e do ¨fodam-se os demais" -, seus sócios e suas mega-empresas (ver revista Época de março/19).

(****) Conheça as regras do jogo de búlica..


As imagens aqui inclusas foram obtidas na internet e sem identificação de autor. Caso você seja autor de alguma, por favor me informe para que possa incluir o crédito.

23/03/2019

A CONSCIÊNCIA DOS EXCLUÍDOS - Parte III


A estrutura que dominou a organização das sociedades pós agricultura, foi, e ainda é, fundamentada em um grupo - não mais que 10% da população(*) - que manda porque detém o poder através da exclusividade do uso legal da força, e uma massa - os 90% restantes - de cidadãos cuja única opção era (ainda é) a obediência pelo simples fato de estar sempre muito atrás do momento de reação, independente de ter recursos para tal. Não é mais. Atenção: estou apenas apontando o que me parece óbvio. 

Da eternidade de tempo entre o envio da mensagem e o recebimento de um retorno, padrão na Idade da Pedra, passando por meses no início da Idade Média, por semanas e dias na Idade Moderna, e chegando a horas e minutos no mundo Contemporâneo do século XXI, foram milhares de anos de distância. Mas para chegarmos à instantaneidade da intercomunicação de nossos dias, bastaram 3 exatas décadas(**) desde que o cientista do CERN, Tim Berners-Lee, teve a ideia de criar uma rede mundial de computadores. Não tenho dúvida de que a virada do século XX para o XXI, ficará registrado na história como o momento responsável pela desestrutura radical das regras de condução das sociedades. Neste barco, ocidente e oriente, hemisfério norte e sul, estão todos enjoados e prestes a vomitar.

Basicamente, o que apresentei até aqui, tem o propósito de justificar, respaldar, as observações do parágrafo precedente e tentar imaginar as consequências que já se observa e como poderá vir a ser o futuro de médio e longo prazo.

Nas duas postagens anteriores, apresentei a ideia de que na maior parte da história evolutiva do homo sapiens, o conceito de frustração social faz um caminho gradativo da sua total inexistência até o estabelecimento, no indivíduo, do sentimento de consciência de excluído, de rejeitado, renegado por um sistema a que só privilegiados podem ter acesso. É nestas últimas décadas que tal consciência se expande através da Grande Rede, permitindo a conexão de todo excluído com seu semelhante em status social e vêm à tona o sentido grupal. Agora é a consciência dos excluídos. Não mais o indivíduo. Agora uma massa de cidadãos frustrados com suas desgraçadas vidas, não que o sejam tão desgraçadas, mas o são, obviamente, se comparadas à de uma minoria privilegiada com acesso a tudo, de saneamento básico a conexão com o mundo na palma da mão, passando por acesso a formação profissional, viagens pelo mundo, mulheres e homens que se parecem com deusas e deuses Gregos. Tudo isso, na maior parte da história, era desconhecido, distante, impreciso, e coisas de abençoados pela sorte. Hoje, interligados, interconectados, não estão mais sozinhos, não têm mais que se conformar com coisa alguma, não atribuem mais à sorte, aos astros,  ao acaso ou à providência divina tais benesses. Agora têm a consciência de que são a maioria, que podem se unir espontaneamente, dispensam, recusam lideranças, e como unidade de movimento, entendem que tudo tem que ser concedido a todos. Um pouco mais que isso: direito de todos, obrigação do Estado, esta meta-entidade da qual se espera mais do se espera de uma divindade qualquer.  

Tomemos a discussão da reforma da previdência. Até o final do século XX, ninguém sabia quanto ganhava um deputado, um senador, um ministro do Supremo, um juiz de qualquer instância. Menos ainda quais eram as regras de aposentadoria destes ocupantes do poder. Hoje, as redes sociais estão entupidas de bits de informação mostrando como tudo funciona e o abismo de realidade econômico-financeira que há entre os ocupantes dos poderes e o cidadão da massa de trabalhadores que, na essência, os sustenta. Quem acredita que isto vai mudar? Quem apostará que a sociedade em Rede aceitará ser prejudicada em nome de reduzir um déficit orçamentário sem que os privilegiados abram mão de suas gordíssimas e injustificadas remunerações e passem a fazer parte de uma realidade vivida pela maioria? A Rede, este é o golpe  na estrutura de poder.


Por quanto tempo mais a sociedade brasileira, em especial, irá aceitar os absurdos ganhos de todos os que ocupam posições na estrutura de poder, em qualquer nível? Por quanto tempo mais a sociedade aceitará conviver com a regra imoral do "efeito cascata", principalmente nas instituições do judiciário onde um aumento no STF se espraia por todas as funções de todos os órgãos abaixo? Que justificativa haverá para que 13 milhões de desempregados aceitem a monumental diferença entre o salário mínimo e a remuneração mensal total de um vereador, deputado, senador, juiz, desembargador etc?

Agora vamos dar uma olhada na violência no Brasil (acontece ao redor do mundo, mas não tenho base para tratar neste âmbito). A criminalidade aumentou desproporcionalmente ao aumento da população (atente para o gráfico). Veja a coincidência da realidade entre o aumento da instantaneidade da informação em Rede e o aumento da taxa de homicídios por 100 mil habitantes. Simples coincidência? Ou o gradativo aumento da consciência de excluído de um enorme contingente de cidadãos jovens que estão completamente frustrados frente à visão de total ausência de perspectiva de futuro?

Como podemos imaginar uma solução para tamanho contingente de excluídos que se defrontam todo santo dia, o dia todo, com as tantas novidades tecnológicas que lhes são ofertadas como obrigatórias, a 10 vezes sem juros e com a ameça de que o seu não consumo lhe deixará infeliz por não participar deste "maravilhoso mundo novo"? Como suportar ver tantas selfies, hipócritas, falsas, na quase totalidade (mas e daí?), de gente sempre feliz quando se é parte de 13 milhões de desempregados, enfrentando filas imensas de candidatos a uma vaga improvável (quando há) de ser conquistada? É razoável imaginar que este contingente cônscio de sua condição inevitável de excluído irá permanecer passivo para sempre? A que atitudes reacionárias (no sentido básico da palavra) tamanha frustração pela consciência de excluído inevitável os irá levar? 

Até o próximo sábado.

(*) Distribuição da Renda no Brasil em 2017

(**) A primeira proposta de criação da WWW foi apresentada no dia 25 de março de 1989. Não por acaso, o Muro de Berlim vem abaixo em 9 de novembro do mesmo ano.


As imagens aqui inclusas foram obtidas na internet e sem identificação de autor. Caso você seja autor de alguma, por favor me informe. 


16/03/2019

A CONSCIÊNCIA DOS EXLUÍDOS - Parte II


Assim como o globo terrestre se mantém girando infinitamente num só sentido, a história da humanidade não retrocede. Uma vez adotada uma nova solução, uma nova tecnologia, uma nova maneira de fazer qualquer coisa, não voltamos a fazer como antes, independente do resultado que esteja sendo obtido com a novidade. Obviamente estou considerando que tanto o planeta quanto o ecossistema não sejam abalroados por uma catástrofe monumental (um asteroide vir a colidir com a Terra, ou uma era do gelo vir a destruir as condições de vida atuais) e continuem a se comportar como sempre tem sido. Considerando estas exceções, estes são dois dos raros (se é que existem outros) sistemas não cíclicos, pois, de resto, tudo é cíclico na natureza e no próprio universo.

A evolução(*) da humanidade não olha para trás, não se arrepende. Uma vez adotada uma nova solução, adeus às vigentes até então. Uma vez que o homem domou o cavalo, o próximo passo foi criar a carroça. Uma vez inventado o motor a combustão que possibilitou o automóvel, o avião veio a seguir e nem mesmo seu uso na revolução de 32 levando Santos Dumont ao suicídio (é o que se pensa), foi capaz de fazer a humanidade voltar à uma época sem máquinas voadoras. O sentido à frente, sem olhar para um retrovisor imaginário, é inexorável tanto na tecnologia quanto nos costumes. Uma outra faceta desta realidade é o que alguém já observou quanto à evolução tecnológica: se pode ser feito, será feito.

Se olhamos para a humanidade em sua essência ao longo da história, concluímos que muito pouco mudou. Nossas necessidades continuam básicas e as mesmas de milênios atrás: aquecimento, abrigo contra intempéries e inimigos, e alimento. Cito Montaigne: "A natureza exige muito pouco para nossa conservação, tão pouco que foge aos golpes possíveis da má sorte". O que mudou foi a forma de suprir tais necessidades.  Entretanto, a mudança de forma veio acompanhada da complexidade. Para o homem nômade, caçador-coletor, a simplicidade de obtenção (independente da dificuldade) era o padrão. 

A partir de um determinado momento, com o advento da agricultura, surgiu o conceito de trabalho, ou seja, um compromisso sistemático de obrigação de fazer algo para, em um processo de troca, um grupo pudesse obter a renda que propiciasse a satisfação daquelas tais necessidades básicas.

De lá para cá, o tal processo de evolução só fez tornar gradativa e sutilmente mais difícil ter uma atividade de trabalho produtiva o suficiente para todos. Uma nova divisão de categoria de humanos começa a se desenvolver: os que sabem e os ignorantes, os aptos e os inaptos, os incluídos na dinâmica social e os excluídos, os párias. 

Até pouco antes do fim da idade média(**), a troca de informação entre diferentes povos, a incorporação de novas soluções, se dava em unidades de tempo muito longas. E mesmo com o desenvolvimento tecnológico da navegação na Renascença e depois, a unidade de tempo de comunicação era da ordem de meses. Antes do telégrafo e do rádio, inventos do século XIX , a informação ganhou velocidade com os primeiros jornais impressos em meados do século XVIII. A unidade de tempo no fluxo da informação se reduz a semanas (ainda dependente da navegação). É a partir de então que o cidadão - não mais um indivíduo qualquer, mas integrante de uma massa que começa a ter recursos para se manifestar e ser ouvida -, tem acesso a informações que antes lhes eram de total inacessibilidade. Se até então ele se via um excluído graças a uma inevitabilidade da vida, a um resultado infeliz da conjunção dos astros e estrelas no instante de sua concepção ou nascimento, com o acesso à informação ele substitui a aceitação pela consciência de excluído, não mais pelas forças celestiais, mas pelas forças detentoras do poder que lhe obstaculizam de todas as maneiras ascender socialmente e ter acesso às modernidades.

É no início do século XX que surgem as transmissões via rádio. As últimas da política, da economia, da cultura agora à mão em um botão de sintonia. Minutos depois de, a milhares de quilômetros de distância, ter sido decretado o fim da guerra, as pessoas puderam sair às ruas para comemorar (Ouça Heron Domingues no Repórter Esso). É o máximo! Agora ele sabe que não está sozinho em suas percepções e frustrações. Existem outros excluídos como ele! A consciência de sua condição agora é real e universal.  Mas o melhor estava por vir entre os finais das décadas de 1940 e 1970. A televisão, a combinação da transmissão de voz e imagem! E agora com um toque especial: a verdade de sua condição social não só é real e universal, mas é ao vivo e em cores! 

Encerrando por hoje, acrescento o que aconteceu nesta semana trágica. O atentado na escola de Suzano - exemplo claro de reação à frustração - e a chacina na Nova Zelândia - exemplo emblemático do "ao vivo e em cores".

Até o próximo sábado.


(*) O sentido de evolução aqui usado é o de aprimoramento da técnica em termos de produtividade, não implicando obrigatoriamente em melhoria do ser humano ou de sua qualidade de vida.

(**) Idade Média: Período da história entre os séculos V e XV d.C., marcado pelo fim do Império Romano.

(***) Renascimento/Renascença: Período da história entre o final da Idade Média, meados do século XIV, e final do século XVI.  



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09/03/2019

A CONSCIÊNCIA DOS EXCLUÍDOS - Parte I

Em quase toda a história da humanidade os indivíduos estiveram (e estão) divididos em duas categorias básicas: dominadores e dominados, ou opressores e oprimidos, ou senhores e escravos, ou oligarcas e povo, ou realeza e plebe, ou privilegiados e excluídos.

Nos primórdios, na idade da pedra, antes dela e um tanto depois, é razoável imaginar que nossos ancestrais trogloditas não tinham o que desejar ou invejar. Quaisquer pequenos grupos caçadores-coletores que se deparassem no meio da savana africana, ao mesmo tempo em que assumiam uma atitude defensivo-agressiva perante o outro num primeiro momento, depois de superadas as incertezas deviam perceber serem essencialmente iguais em aparência, modo de vida, necessidades, dúvidas e medos.  

Esse quadro pode não ser o melhor instantâneo de um passado onde a humanidade ainda não conhecia a propriedade privada e todos os indivíduos partilhavam de um similar modo de vida, mas qualquer outra visão será muito semelhante no reconhecimento de que houve uma época em que não havia o que almejar além de garantir o sustento e se manter vivo, livre da fome das feras predadoras do homem.

A escassez de alimentos e/ou uma eventual drástica mudança climática obrigaram os humanos a cultivar a terra e a nela se fixar por longos períodos para produzir no hoje o alimento de amanhã. É aí que as diferenças se manifestam e passam a reger, ou no mínimo, interferir nas inter-relações tribais, pois houve os que viram no trabalho a saída para a sobrevivência e aqueles que, por preguiça ou incapacidade, apenas usufruíram do trabalho alheio. Não à toa, tal mudança é considerada como a primeira revolução na estrutura social até então vigente. Daí para a adoção do conceito de propriedade, tanto da produção, quanto da terra, foi a consequência óbvia, e associada ao excedente de produção, a humanidade, sem querer, criou o "mercado", onde produtores aumentavam suas posses fazendo escambo de seus produtos por outros de seu desejo.

As cidades - no princípio pequenos aglomerados - surgiram para atender a necessidade de pontos de troca e de oferta de serviços agregados (transporte de mercadorias, produção de ferramentas, sementes etc). 

Uma pequena digressão. Me vem à mente um dito popular, mas revelador de quem saiu no lucro, de que na busca do ouro quem mais obteve proveito foram aqueles que garimparam oportunidades de comercializar produtos e serviços que atendessem as necessidades dos mineiros. Seria mais ou menos isso que ocorreu na antiguidade? Voltemos ao tema.

Impossível se torna a participação de todos como nos primórdios das cavernas, quando um grupo era uma família (ou pouco mais que isso), sendo fácil de controlar e identificar transgressores. Quando surgem os agrupamentos, "todos" passa a significar um contingente de indivíduos, ou melhor, de tribos que, em conjunto, formam um corpo difuso, confuso, desordenado e descontrolado.

O advento das cidades exigiu a elaboração de acordos sociais, de regras regulatórias para um razoável e estável convívio de indivíduos e para que as trocas de mercadorias e serviços ocorressem num ambiente de equilíbrio entre as partes envolvidas nas transações. Indivíduos mais ousados, mais ambiciosos, almejaram o controle e assumiram a tarefa de legislar sobre a massa, controlar sua aplicação e punir os transgressores. 



Nascem os sistemas políticos e surge o que conhecemos como civilização, uma alternativa à barbárie como solução de conflitos (há milênios perseguimos a utopia de extirpá-la por completo) em troca da obediência a códigos de conduta que implicassem no reconhecimento dos direitos do outro. Mas controlar sempre foi uma tarefa inglória pois há muitas maneiras de evitar ser pego nas transgressões. Tal reconhecimento abriu a cabeça de alguém que viu no transcendente - o homem desde sempre temeu e teme aquilo para o quê não encontra explicação - um útil mecanismo de auto-regulação do comportamento. Nos primórdios, ameaçar com a ira dos deuses e, mais tarde, com o fogo dos infernos para aqueles que pretendessem violar as normas.  

Considerando o aspecto sistêmico, os humanos passam a se dividir entre os que mandam - os que têm a força - e os que obedecem. Acredito que por milênios tal condição não mereceu qualquer questionamento. Foi um período em que "assim é a vida" e estamos conversados. Não por vontade, mas pela falta de recursos de comunicação para aglutinar os cidadãos em torno de uma ideia que os levasse a uma revolta contra o status quo. As primeiras construções de sistemas políticos se deu com base no princípio de que alguns humanos eram mais humanos que outros, que alguns eram eleitos pelos deuses e deuses não eram questionados: senhores são senhores e vassalos são vassalos. Tal aceitação, portanto, não gerava qualquer frustração e sentir-se excluído ou desconsiderado não tinha o menor sentido. Simples assim.  Hoje, não mais.

O poder da Igreja Católica(*), em especial, vai se mostrar absoluto na idade média, a tal ponto que a primeira providência de um proclamado Rei era se ajoelhar aos pés do Papa para lhe pedir uma abençoada aprovação. Tal providência era a garantia, através do aval papal, que ao morrer teria seu lugar no céu ao lado de Deus. Os reis, neste pormenor, eram tão humanos quanto seus súditos e como tal tementes ao transcendente.

Não sou historiador. O máximo que me atribuo é a capacidade de olhar para o passado e tentar descobrir o que fez com que a história (qualquer que seja o período considerado) tenha sido do jeito que foi. A partir daí, avaliar o processo que nos fez estar onde estamos e, consequentemente, ter alguma ideia das consequências sobre o futuro.

A síntese das sínteses que apresentei nos parágrafos acima, com todos os erros históricos contidos, tem o único intuito de preparar uma base referencial de um mundo do passado para poder apresentar algumas ideias sobre o ser humano em nossos dias sob a égide da nova era digitrônica.

Até o próximo sábado.

(*) Só a existência de um período marcado pela Inquisição bastaria para realçar tal poder, mas  neste link você tem acesso a um quadro geral da Igreja na Idade Média.


As imagens aqui inclusas foram obtidas na internet e sem identificação de autor. Caso você seja autor de alguma, por favor me informe. 






22/01/2019

PARA SEÇÃO "CARTAS", REVISTA PIAUÍ

Prezado Editor de Piauí,

O professor e filósofo Ruy Fausto, em Sofística e Polícia Política, edição de Jan/19, responde a críticas do também filósofo Olavo de Carvalho com argumentos que, em sua maioria, não me tocam. As exceções ficam por conta de duas ideias em que ele parece acreditar. A primeira é a de que Bolsonaro é um ideólogo no pior sentido e que vai nos levar para o abismo do controle estatal de extrema direita. Ou seja, se junta ao discurso da esquerda "acachapantemente" perdedora que tenta vender um futuro ameaçador cujo presente nem começou. Em momento algum, o professor aborda o fato de que a escolha de Bolsonaro se deu exclusivamente (é minha interpretação e convicção) pela incompetência política e econômica e a canalhice dos indivíduos e agremiações partícipes que compuseram a esquerda petista no poder por 13 anos e que vão ficar entranhadas na estrutura do Estado por anos. A maioria dos eleitores não optou, não quer e não apoiará um governo menos ou mais fascista, apenas gritaram: "Chega! Depois a gente resolve o item 2". 

A segunda exceção, que se percebe nos meandros dos argumentos, é que parece haver do professor um sentimento de alívio de consciência do tipo "fiz minha parte", "eu avisei", como a querer se justificar perante a opinião alheia. Ora, a direita, o neoliberalismo, como queiram, chegou ao poder pela total ausência de alternativa. Onde estavam os próceres desta esquerda tão moderada com a qual o professor se identifica que não levantou bandeiras contra as desigualdades e a favor da "economia solidária" como é seu desejo utópico? Onde estavam os intelectuais e ativistas que perceberam a fraude Lula e pularam fora do barco? Por que eles não construíram uma grande frente centro-esquerda comprometida com honestidade e transparência como ficou evidente nas manifestações das ruas e nas redes sociais ser o desejo dos brasileiros?

Professor, uma boa olhada no espelho pode mostrar as marcas da hipocrisia. Um bom creme esfoliante pode trazer de volta uma cara limpa para vir nos ajudar a ajustar propostas que talvez não se ajustem ao Brasil que sonhamos. 

Paulo Vogel