30/04/2020

CAOCRACIA BRASILEIRA

Venho insistindo que a democracia tem que ser reinventada. Enquanto não, o Brasil, principalmente, vem aprimorando dia-a-dia uma caocracia(*), o governo do caos, onde ninguém governa, os poderes se confundem e se confrontam, e os cidadãos, principalmente agora quando não tendo o que mais fazer, se afogam em debates midiáticos e digitais ao sabor dos interesses de forças que disputam o poder pelo direito de saquear os cofres públicos.

Na minha vida como publicitário, aprendi que por mais inteligente, criativa, instigante que uma campanha publicitária seja, não se mantém em pé depois de meia hora de questionamentos. Um casamento, por mais juras, não se sustenta. Uma amizade, por mais enraizada e profunda, não resiste. Mesmo o mais íntegro dos seres humanos se verá arrasado, derrotado, depois de enfrentar um bombardeio de suposições, invasão de vida pessoal e levantamento de dúvidas sobre intenções imaginadas escusas. Mas é exatamente isto que estamos vivendo todos os dias, todas as horas, um constante ataque a não importa o quê o Presidente diga ou faça. 


Ágora ateniense
Quando a democracia foi imaginada, o tempo era muito longo. Pra tudo. De cozinhar a conquistar outros povos, levava um tempo muito maior do que agora. O microondas e novos vírus oriundos de condições de saúde pública precárias, oferecem solução mais imediata! Na Ágora ateniense, em uma pracinha com meia dúzia de gente sem ter o que fazer, o representante do imperador colocava em discussão aquilo que lhe interessava e, através de uma boa retórica, aprovava sua pauta. Dali até uma nova "assembleia", passariam meses ou mesmo anos.


Hoje, no mundo, todos os que têm recursos de acesso à digitrônica se sentem impelidos a participar. No Brasil, todos, eu incluso, se sentem aptos a opinar sobre tudo com a veemência dos pretensos especialistas, enquanto especialistas são bombardeados com ataques dos que ignoram sobre o que falam e escrevem. Um mar de blogueiros e youtubers a conquistar cliques que os levem aos píncaros de seus 15... segundos de fama.


Mas na caocracia tudo é imediato, tudo "precisa" ser publicado agora porque toda opinião perde a validade em poucas horas. Nesta caocracia, tudo é possível, todos podem, ninguém é responsabilizado, não há limites, não há princípios, ou melhor, o princípio é destruir para conquistar. Ética e moral se tornaram absolutamente relativas ou simplesmente postas de lado, haja vista a falta delas nas atitudes de Moro ao deixar o ministério.

Na nossa caocracia de ocasião, os três poderes se auto-questionam em seus papéis. O legislativo quer governar - Rodrigo Maia quer atuar como primeiro ministro -, o judiciário quer interferir no Congresso - Celso de Mello pede explicações a Maia sobre não pautar pedidos de impeachment, uma questão de regimento do poder legislativo -, o executivo tem seus decretos não votados pela câmara - porque Maia deixa caducar prazos propositalmente -, nomeações são  anuladas por razões sem pé nem cabeça - Alexandre de Moraes impede nomeação do Diretor da Polícia Federal por este ser amigo de Bolsonaro. Enquanto isso governadores querem o dinheiro do governo federal mas não querem se submeter a um plano nacional de combate ao COVID-19. Sem contar que três direitos constitucionais são violados sem qualquer rubor: 1) O direito de ir e vir por governadores algemando cidadãos no exercício de sua liberdade; 2) o direito de manifestar opinião em manifestação pública pelo Ministro, novamente, Alexandre de Moraes, a pedido do Procurador Geral, Augusto Aras, alegando atos "antidemocráticos"; e 3) o direito ao sigilo de resultado de exames pela juíza Ana Lúcia Petri Betto que deu 48 horas para Bolsonaro e pelo deputado Rogério Correia do PT que lhe deu 30 dias, o que ressalta o completo non-sense do status atual da pandemia que infecta nossas instituições.

Neste grande jogo político, antes jogado por  elites intelectuais e/ou políticas sedentas de meter a mão nos recursos do Estado em benefício próprio, tem agora como partícipes todos nós - antes apenas almas de uma massa informe de manobra -, agora nos vemos pretensos e ilusórios protagonistas de nossos destinos moldados por robôs formadores e interpretadores de nossos desejos contabilizados por likes e dislikes.  

Nesta grande caocracia do sul, nesta era digitrônica que já chega perto dos 30 anos, quem perde eleição não aceita derrota, abre mão de fazer oposição construtiva para agir destrutivamente. Basta-nos ver a quantidade de impeachments solicitados ao longo destes anos: FHC (27), Lula (37), Dilma (68), Temer (33) e Bolsonaro já passando dos 30. 


Para encerrar, inspiro-me no poeta Petrarca (**):

impichar 
é preciso, 
governar 
não é preciso.  




(*) Criei o termo caocracia - o governo do caos - para identificar uma democracia que precisa ser reinventada antes que o caos que se observa atualmente justifique a chegada de uma autocracia de direita ou simplesmente uma ditadura de esquerda, ambas desejada por duas minorias opostas de brasileiros. O termo provém do grego Χάος, (Cháos ou "caos"), e de κράτος (kratos ou "poder").

(**) Francisco Petrarca nasceu em 20 de julho de 1304, Arezzo, Itália. Foi um intelectual, poeta e humanista italiano, famoso, principalmente, devido ao seu romanceiro. É considerado o inventor do soneto, tipo de poema composto de 14 versos. "Fonte: Wikipédia

LEITURA COMPLEMENTAR






25/04/2020

NOVES FORA HIPOCRISIAS...

Tenho poucas qualificações além de ser um observador da vida, dos seres humanos e cultivador de um gosto especial por projetar consequências futuras de fatores e atos do presente. Isto posto e, portanto, do alto da minha ignorância do que se passa nas alturas do poder, vou registrar minha tese sobre o imbróglio Bolso/Moro ou Moro/Bolso, como prefiram.

Desde os primeiros dias da era digitrônica, quando ela ainda engatinhava nos idos da década de 90, já mostrava seu potencial de interferir no modus operandi das relações humanas e dos humanos com as "entidades" da civilização em todos os níveis de atuação. Um dos exemplos disto é a profunda alteração na dinâmica política em função do "encurtamento dos tempos" que ocorreu nestes últimos 30 anos. Quando antes tudo demorava um tempo favorável à digestão dos acontecimentos, hoje o tempo que dura é apenas uma questão de quão larga é a banda de transmissão medida em gigabits por segundo. Sendo mais específico, a demora na circulação da comunicação, nos dava certa garantia de que a informação, antes de provocar reações, tinha grande probabilidade de ser ingerida, gerida e dela extraído um extrato menos venenoso, menos danoso, e mais fortalecedor de nossas próprias ideias e princípios.

Em nossa era digitrônica, o Ministro faz uma coletiva de imprensa em que antes mesmo de seu término já se espalham por todas as mídias interpretações, considerações e projeções tão díspares quanto os interesses de seus propagadores - cidadãos, políticos, empresários, jornalistas (principalmente), blogueiros, etc.

Somadas as falas, as contra-falas, as fofocas, as fake news e outros ingredientes midiáticos duvidosos, escusos, e tirados os noves, até aí o resto que sobra é sempre o mesmo: uma grande hipocrisia.

As questões relevantes, o que realmente compõe o arcabouço dos acontecimentos, as reais motivações de cada ator neste grande jogo de poder não-digital, sem heróis pré-configurados, sem armas totalmente conhecidas, sem regras de pontuação e sem saber o que determina o como e quando o jogo acaba, simplesmente não são postas à evidência do maior número de cidadãos. Seria contra-produtivo!

Quais então seria tais questões? Temos nós, incautos e manipulados cidadãos-eleitores, possibilidade de conhecê-las? Possível é, mas não é fácil. Por isso vou expor algumas observações para organizar meu pensamento e tentar ajudar meu leitor a fazer mesmo.

Desde muito certas coisas vindas de Moro me incomodam. Como acontece quando nos identificamos com o que faz/pensa alguém, somos psicologicamente induzidos a fingir que não relevamos coisas que... hum... "é melhor não pensar nisso". Lembra da divulgação da conversa entre Lula e Dilma sobre a nomeação para ministro da Casa Civil? Não ficou um cheirinho de merda no ar? E a omissão recente de Moro sobre a obstrução do direito de ir e vir cometidas em obediência a ordens de governadores e prefeitos? Outros "eventos" estranhos ocorreram, mas saí de minha cegueira voluntária depois da forma imoral que ele escolheu para marcar a comunicação de seu pedido de demissão. Enquanto ele cobrava do Presidente uma razão "técnica" para exonerar o Diretor Geral da PF, ao mesmo tempo ele não dava sua real razão para intencional e claramente criar uma crise política com graves consequências para o país. Qual sua intenção? Por que simplesmente não se concentrou em sintetizar os resultados de sua gestão, o que seria absolutamente justo, em lugar de fazer insinuações sobre pretensos interesses escusos de Bolsonaro? Para esse tipo de atitude, quando acontece conosco, classificamos o sujeito taxativamente como um tremendo mau-caráter.

O segundo aspecto importante a que devemos dedicar especiais reflexões é quanto ao grande, monumental feito realizado por Bolsonaro a partir de seu primeiro dia de governo: o desmonte do establishment (*), anglicanismo horroroso que Paulo Guedes gosta de usar. Chamo sua atenção para avaliar com extremo cuidado e à luz de princípios de uma democracia plena, a atuação de Ministros do STF que têm se arvorado iniciativas de completo ataque à Constituição, como, por exemplo, Celso de Melo interpelando Rodrigo Maia sobre as razões de não colocar em pauta os tantos pedidos de impechment que foram protocolados na Câmara. Respondi assim, em rede social, a comentário manifestando a retirada de apoio a JB: "Só a coragem destemperada de JB para revirar o status quo da política então vigente. Quem o acusa está esquecendo que há um jogo político de alta resistência que: 1) faz tudo o que pode para minar o poder de ação do governo federal; 2) fazem de tudo para se refestelarem com as verbas que deveriam estar a serviço do país; e 3) não estão nem aí para todos nós". E acrescentei um "lembrem-se":
Mas aqui vou deixar uma outra pergunta: como estaria sua integridade moral, psíquica, fisiológica, mental, se estivesse no lugar dele, passando pelas mesmas pressões?

Um terceiro aspecto tem a ver com o valor pessoal que Bolsonaro me parece ter como sendo o maior que preza: a família. Não sem razão, portanto, levou para o Planalto seus 4 filhos, sendo que 3 deles políticos eleitos, cada um em uma esfera, cada um com responsabilidades de atuação na estrutura do poder executivo federal. Proteger qualquer um deles é o que ele faz e é o que a maioria de nós faria. Pelo menos até onde os preceitos morais de cada um não fosse ferido de morte. Dito isto, me acompanhe com vagar, porque vou fazer uma suposição a partir do fato incontestável de que o inquérito sobre "rachadinhas" no Rio de Janeiro, cujo protagonista principal é Fabrício Queiroz, um amigo pessoal de Flávio e Jair Bolsonaro, não anda, não chega a nenhuma conclusão final. 

É do "conhecimento" popular desde áureos tempos que a maioria dos assessores nomeados por políticos de cargos eletivos ou não, destinam, em princípio, 30% de seus salários para o político que o nomeou. Arrisco-me a deduzir que esta prática é uma, ou talvez a principal razão para que os salários de servidores públicos sejam na média o dobro dos salários da iniciativa privada para as mesmas funções e qualificações. Isto é razoável supor porque, do contrário, ninguém toparia ganhar 30% menos no serviço público quando poderia ganhar os 100% na iniciativa privada!!! Esta seria, na minha hipótese, uma prática que ao longo do tempo foi ganhando ares de "normalidade", a ponto de que novos integrantes, mesmo que íntegros como madre Tereza, com o passar dos meses e ganhando um salário não condizente com sua "abnegação pelo povo", cheguem à conclusão de que os "mais antigos" têm toda razão em praticar a "rachadinha" como justo complemento de renda. Na minha hipótese, portanto, talvez o problema do papai seja que entre os integrantes do poder isto sempre tenha sido normal, até que alguém use tal "desvio moral" como pretexto para atacá-lo. Dar uma gorjeta para o guarda é prática normal até o dia em que você é publicamente exposto tendo praticado tal ato. Sacou? No caso em pauta, como defender agora tal prática em tempos passados? Supondo, obviamente, que nos dias atuais a prática tenha sido no mínimo suspensa temporariamente.

Antes de encerrar, deixo a opinião de que a democracia precisa ser reinventada para lidar com os desafios impostos pela era digitrônica. Em particular aquelas que, como a brasileira e a americana, têm mandatos de 4 anos, com eleições intercaladas a cada 2 anos, dinâmica que impede projetos de longo prazo e favorecem a constante disputa pelo poder, levando, inevitavelmente, a pedidos de impeachment, independente de quem seja eleito, de quanto apoio tenha o governante, de quais seus níveis de acerto etc. É impossível um país ter estabilidade para se desenvolver se não puder agir com objetivos e metas de longo prazo. É inconcebível que a quase 3 anos da próxima eleição presidencial, esteja hoje em pauta em todas as mídias a doisputa de 2022!!! É insano ter diversos governadores que, em plena pandemia, estão em flagrante campanha para Presidente da República!!! 

Noves fora a hipocrisia, portanto, sobra o restolho, o inevitável lixo do jogo político, jogo do qual só participamos como gândulas, apanhadores de bola-fora de jogadas mal executadas! Entendeu a ironia?


(*) Significa "todos os que compõem a elite no poder".














21/04/2020

DEMOCRACIA ADA-PT-ADA

Tenho um certo estremecimento mental quando ouço alguém dizer que "é preciso ter bom-senso", ou que "está faltando bom-senso" ou outras manifestações de pretensas propostas de equilíbrio. Na minha percepção, sempre "falta bom-senso" naquele que não concorda com o que se deseja. Tal "egoísmo filosófico" observo entre todos os que se dizem democratas autênticos, de raiz, quando se manifestam a respeito de opiniões e ações de oponentes. Parece haver uma democracia para cada situação.

Bolsonaro, no domingo 19/4/20, foi a uma manifestação de cidadãos brasilienses entre os quais esteve presente uma turma de radicais de direita pedindo desde fechamento do STF até golpe militar, edição 2020. De minha parte, não comungo este desejo, nem poderia, pois vivi minha juventude universitária entre 1969 e 1973. Da parte das forças armadas, já em 2017, o General Mourão respondia a jornalistas sobre elas afirmando, entre outras razões, que não é papel do Exército ser "um fator de instabilidade". Desde, portanto, de antes de alguns generais assumirem posições na estrutura do poder executivo pela eleição legítima de Bolsonaro, e até hoje, não houve mínima sugestão da parte deles em romper com os preceitos constitucionais. Entretanto, desde a posse em janeiro de 2019, setores da sociedade que saíram perdedores no jogo de poder e que, mês a mês, passaram a ver seus escusos interesses veementemente negados, obstruídos, pelo Presidente, insistem no discurso da "democracia ameaçada" por um autoritarismo imaginado, sonhado, desejado, mas nunca manifestado. Para os "incomodados", proclamar o desejo de uma intervenção militar é um ato "contra a democracia" e precisa ser reprimido e incentivadores devem ser identificados e presos, mas bradar e apoiar "impeachment já", não. 

Na minha democracia, qualquer manifestação pacífica de opinião, individual ou em grupo, é um ato legítimo e garantido pela constituição, artigo 5º, IV: "É livre a manifestação do pensamento sendo vedado o anonimato." Mas parece que o Procurador Geral da República não leu, ou se leu, não entendeu, esta norma constitucional. Basta ver o noticiário de hoje dando conta que o Procurador entrou com um pedido de inquérito no STF sobre o evento alegando que o "Estado brasileiro admite única ideologia que é a do regime da democracia participativa. Qualquer atentado à democracia afronta a Constituição e a Lei de Segurança Nacional”. Sou forçado a perguntar como devemos entender "democracia participativa" se proclamar opinião "afronta a Constituição"? O Procurador ainda acrescenta que "nesses momentos podem surgir oportunistas em busca de locupletamento a partir da miséria e da perda da paz que podem resultar em graves comoções sociais". E aí eu deixo outra pergunta ao senhor Aras: por que os frequentes pedidos de impedimento do Presidente baseados nos mais banais argumentos não constituem tentativas de "oportunistas" de causar "a perda da paz"? Quero lembrar também ao excelentíssimo que o "povo" tem o poder só de manifestar suas tendências opinativas nas ruas. Quem consegue "desestabilizar", derrubar um governo são os que têm posição e força para minar a ordem institucional. Estes são os tantos que de dentro da máquina pública, vêem o Estado como propriedade particular. O que infelizmente vem acontecendo. 


E quanto a governadores que extrapolam da autoridade agredindo, literal e fisicamente, o direito, mais um, constitucional, do cidadão de ir e vir? Alguém sabe de alguma ação do Procurador Geral? Sobre o mesmo fato - e outros similares - como se pronunciou o Presidente do Supremo Tribunal Federal? Onde está a  indignação da mídia esquerdista? O que disse a OAB em defesa dos cidadãos e cidadãs covardemente agredidos? Etc. Em que se respaldam governadores que fazem ameaças de prisão e multa para quem desrespeita o que, em última análise, é apenas uma das visões de estratégia de combate à epidemia entre tantas outras existentes?


Estamos em um conturbado momento democrático mundial, mas que no Brasil tem sons e cheiros especiais e originais. O advento da era digitrônica ainda não foi absorvido, entendido, por ninguém, sejam políticos, historiadores, analistas ou cidadãos. As transformações, apesar de em andamento, são tratadas com pílulas de medicações vencidas, o que, como sabemos, não devem ser ingeridas sob pena de nos causar ainda males maiores. Precisamos de uma ciência da democracia que descubra novas formas de gerir as sociedades. 

Finalizando, no título, "Democracia Adaptada", ressaltei a letras P e T, que juntas formam a mais famosa - no mau sentido - sigla de agremiação política do Brasil, por considerar o PT o maior utilizador da técnica de ADAPTAR convicções e "verdades" aos interesses de quando está no poder e de quando está na oposição. Para o PT foi golpe tirar a Dilma do poder. Para o mesmo PT, para o Procurador e para o Presidente do STF, parece não ser golpe fazer campanha "fora Bolsonaro". 

Esta é a "democracia adaptativa" específica e original de nossa nação tupiniquim.








08/04/2020

NO DIA DEPOIS... - 2

Nos dias depois, quando pudermos voltar, de alguma maneira, a um jeito de viver minimamente produtivo sócio-economicamente considerado, muita coisa será diferente, muitas atividades desaparecerão, ou serão negativamente afetadas, ou levarão muito tempo para atingir um patamar que valha a pena mantê-la. A lista que começo a construir aqui - e agradeço contribuições -, é um exercício sobre o futuro de muitos setores de negócios e de hábitos da vida cotidiana. Para muitas situações, só tenho perguntas e nenhuma ideia de como será! O horizonte de tempo a considerar depende de quando cada um de 3 fatores se tornará uma realidade em nível mundial de cobertura próximo a 100% da população: 1) existência de kits para testar a presença do vírus 2) tratamento farmacológico comprovadamente eficaz; 3) uma vacina preventiva. Posto isto, convido você a fazer uma avaliação de cada item listado a seguir, estabelecendo um prazo para a recuperação total, parcial, ou morte, de cada um deles (junto a cada uma eu coloco a minha previsão). O objetivo é cada um construir uma perspectiva do dia depois de amanhã que, com absoluta certeza, não será mais como o dia de antes de ontem. Este exercício nos ajudará a tomar melhores decisões hoje quanto a uma provável realidade futura, seja no âmbito pessoal e familiar, seja quanto à proteção do patrimônio (quem ainda o tem), seja quanto a que caminho tomar para manter um nível mínimo de renda (independente da fonte), seja, por fim, que decisões de governo devemos cobrar e apoiar.


- O peso de cada nação no cenário mundial do comércio sofrerá alterações radicais. Estados Unidos já anunciaram que envidarão esforços para reduzir fortemente a dependência de produtos chineses. Uma consequência provável será o incentivo a nações parceiras para produção substituta (via oferecimento de tecnologia e financiamento). (A conferir em 2 anos.)

- Enquanto a China não provar ao resto do mundo que abandonou de vez hábitos alimentares que estão sendo considerados como origem desta e outras pandemias, irá perder mercado em função das restrições que as populações ao redor do mundo colocarão ao consumo de qualquer coisa que venha de lá. (Processo a se intensificar nos próximos meses.)

- A redução da atividade econômica tem como consequência a redução da arrecadação. Menos imposto, menos recursos para o Estado, implicando na alteração das prioridades de investimento. Arrisco-me dizer que o setor de saúde deverá subir alguns degraus, enquanto infra-estrutura de estradas terá projetos adiados. (Durante os próximos 5 anos.) 

- A desvalorização horizontal, para usar um termo dos tempos de COVID-19, das empresas listadas em bolsa vai levar a um rearranjo dos controles acionários em escala mundial. (Processo em andamento e pelo próximo ano e meio.) 

- O setor de viagens, seja a trabalho ou lazer, que já está paralisado, não se recuperará tão cedo (em março perda mundial estimada em R$ 14 bilhões). Companhias aéreas irão à falência brevemente; o mesmo acontecerá com o setor de) hotelaria (iremos ver com frequência prédios abandonados que antes abrigavam hotéis de 4 e 5 estrelas); todo o micro e pequeno comércio que até aqui vivia em função do turismo, simplesmente acaba; a indústria aeronáutica não terá encomendas por muitos anos (o que fazer com a atual frota de aeronaves que está no chão?). O que será de Dubai? Um deserto desabitado? (Processo em andamento e pelos próximos 5 a 10 anos.)

- Quando a indústria do entretenimento, hoje completamente aniquilada, retomará gradativamente as atividades? Quando uma Disney voltará a acolher hordas de visitantes como nas últimas décadas? Depois de a digitrônica ter dizimado a indústria fonográfica, que soluções artistas da música encontrarão para sobreviver sem a possibilidade de realizar shows ao vivo? (Talvez a partir de daqui a 3 anos.)

- A proibição de abertura do comércio está deixando uma enorme parcela da classe média brasileira absolutamente sem renda. Hoje, lojas em todas as cidades submetidas a quarentena, estão fechadas, com pequenos empresários tendo que cumprir compromissos trabalhistas, custos de instalação e dívidas com fornecedores, situação que levará parcela significativa a perderem a capacidade de recuperação/reabertura num futuro ainda incerto. Assumindo que este quadro venha a se tornar realidade, podemos imaginar os milhões de pequenos empreendedores que perderão sua fonte de sustento e que integrarão o contingente à procura de emprego que hoje já é de 12 milhões de cidadãos. (Processo em andamento.)

- O comércio eletrônico terá um crescimento relativo, dado que, se por um lado aumenta a demanda em função de se priorizar a compra pela internet, por outro a demanda de certos produtos se reduz em função da eliminação de algumas das razões de compra (p.ex., pra quê sapato novo se você não tem aonde ir?). (Já em andamento, veja este relatório com números de março/20.

- Se o e-commerce cresce, a contrapartida será (já é) a redução da participação do pequeno comércio local no volume total das transações comerciais. (A conferir no final dos próximos 2 anos.) 

- Além de virem a integrar o contingente de desempregados, qual o destino das famílias que até aqui viviam do trabalho informal diretamente ligado/dependente dos setores de lazer, turismo e entretenimento? (Processo em andamento.)

- Muitas indústrias de equipamentos, cuja demanda se reduz (ou acaba) por conta das pessoas sitiadas em casa (ou pela paralisação de algumas atidades, como já apontado acima), tentam redirecionar/adaptar seus recursos para, principalmente, a produção de equipamentos hospitalares. (Processo em andamento.)

- A educação que já vinha sendo questionada, criticada, por ainda não ter encontrado o novo papel do professor (imaginando que ele ainda terá algum papel) na nova era digitrônica, agora não terá mais desculpa. O ensino à distância, a formação fora das salas de aula, será a realidade, independente do que docentes conservadores ainda achem. (A conferir daqui a 3 anos.)

- O que está reservado ao futuro de nossos filhos e netos? Por quanto tempo ficarão presos dentro de casa, por horas conectados em atividades educativas ou "prejudicativas" na Rede? O que resultará do convívio com os pais 24/7? Que adultos serão depois das consequências desta pandemia enclausuradora? (Processo em andamento e enquanto durar o confinamento.)

- Não tenho dúvida de que a implantação, hoje obrigatóra, do trabalho em "home office" - tele-trabalho -, deixará como saldo a perda dos receios e restrições que até aqui impediam a adoção desta alternativa tecnológica. Portanto, uma redução significativa no trabalho presencial deverá ser observada, afetando em consequência a redução dos aluguéis de salas comerciais. (A conferir nos próximos 2 anos.)

- A infra-estrutura de comunicação, via cabo e satélites, vai receber investimentos para dar conta do incremento exponencial da demanda por mais banda. (Ao longo dos próximos 3 anos.)

- O uso obrigatório de máscara, tanto no convívio social, quanto no convívio público geral, seja em ambientes abertos ou fechados, é o principal fator de redução do índice de contaminação geral, seja deste COVID-19, seja de um eventual, mas provável, novo vírus de similar letalidade. Mas como vamos resolver nossos encontros com amigos para um encontro no restaurante, ou na laje, no final de semana? Como faremos nossas consultas médicas? Nossos exames de rotina? Quando os hospitais voltarão a nos dar assistência para os tantos males que hoje estão relegados a 5º plano? (Processo em andamento.)

- No âmbito individual a adoção intensa de hábitos de higiene pessoal, irá reduzir a propagação de outras viroses, resultando, portanto, em queda no número de atendimentos hospitalares por conta das mais vairadas infecções. (Conscientização em andamento. A conferir ano a ano.)

- Os acidentes (e as mortes) nas estradas se reduzirão em grande proporção como resultado da diminuição do tráfego já que viajar será restrito a motivos de absoluta necessidade. Mais uma consequência positiva para o sistema de saúde. (A conferir ano a ano.)

- Talvez academias sejam trocadas por equipamentos em casa, ou tele-aulas, ou por outras atividades que não impliquem em aglomeração. (A conferir no futuro próximo.)

- E os esportes, se e quando os eventos voltarem a ser realizados, por quanto tempo aguentares que sejam praticados em arenas e estádios fechados ao público? E como poderemos torcer e explodir em um grito monumental quando Gabi Gol, ou Everton Ribeiro, ou Bruno Henrique colocar a bola no fundo da rede em jogada sensacional!!!??? (Mengoooooo!!!). Desculpe, não resisti! (Próximos 12 meses.)

- As empresas de transporte de passageiros (táxi, ônibus, metrô, trem, avião, navio, ferryboats) serão obrigados a adotar procedimentos de higienização antes que seus veículos saiam das garagens para atenderem a população. (A partir de já.)

- Como se adequarão prestadores de serviços como: cabeleireiros e barbeiros, instaladores de equipamentos caseiros, garçons, marceneiros, pintores, dentistas, médicos clínicos em geral e tantos outros? (A conferir nos próximos meses.)

- Então, ficamos assim, com ou sem máscara e até que as condições voltem a permitir,  proibido abraçar, beijar, dar as mãos, dançar, manifestar a fé nos templos, confraternizar com amigos, colegas da escola, do trabalho, praticar esportes em equipe etc. etc. etc.  

- ...
Antes de me qualificar como arauto do apocalipse, tente imaginar sua vida e a da maioria dos humanos durante o tempo em que vamos nos sentir inseguros para agirmos como sempre agimos (lembre que isto perdurará enquanto não houver kit teste, medicação eficaz e vacina preventiva). Reflita, pense, avalie se há alternativas para o todo ou partes desta fotografia dos dias depois de hoje. Diga-me onde e por que estou errando. Ou me lembre de algo importante que esqueci de mencionar.

Mas não saia de casa SEM MÁSCARA. Não atenda clientes sem luva. Higienize tudo, sempre. Antes de consumir produtos horti-fruti, lave-os bem com sabão. Antes de manipular qualquer embalagem, passe álcool nas mãos e na própria embalagem. O novo mundo exige que você adquira novos hábitos. Para a sua sobrevivência e a minha. Até que um maravilhoso mundo nova possa ser compartilhado entre todos nós.

As máscaras nos vídeos abaixo são recursos para a falta daquelas cirúrgicas produzidas de acordo com as Normas Técnicas vigentes. Enquanto você não as encontra elas são algo muito, muito melhor do que nenhuma.





MÁSCARA DE PAPEL TOALHA, SIMPLES E RÁPIDA.


3 MODELOS DE MÁCARAS DE TECIDO DE ALGODÃO.


MÁSCARA DE JEANS LAVÁVEL.




04/04/2020

NO DIA DEPOIS...

Tive que sair para comprar álcool em gel. Coloquei a máscara que eu mesmo fiz e fui de carro à rua principal do comércio. Passei por mais de duzentas pessoas e apenas 3 usavam máscara.

Fui à farmácia e nenhum dos atendentes, inclusive as caixas, não usavam nem máscara, nem luvas (M&L). Passei pelo posto e nenhum frentista usava máscara, pelo menos.

Enquanto isso Bolsonaro e Mandetta se bicam sobre o imediato e ambos não se dão conta de que há uma realidade que irá se impor independente do que pensam, do que acreditam, do que fazem, do que discordam. Enquanto o Ministro se concentra em evitar o caos na estrutura hospitalar, o Presidente se preocupa com a paralisação da economia. Se bicam quando se complementam, pois se qualquer delas se efetivar, milhões e milhões de brasileiros serão drasticamente afetados.

Presidente e ministros, principalmente os da Saúde, da Economia, da Infra-estrutura e da Educação, ainda não perceberam, ou, se perceberam ainda não estão agindo para nos antecipar à nova realidade que se estabelecerá no dia depois desta pandemia. Uma prova desta miopia é a campanha que acaba de ser lançada pelo governo para ensinar à população a fazer máscara caseira. Chegaram atrasados. Nas redes sociais há dias circulam vídeos mostrando as mais variadas formas delas serem feitas. Isto todos nós podemos fazer. O que a cegueira não deixa ver é que nós não temos força para obrigar o uso de M&L a todos os que desejam ou precisam ir às ruas, e os que trabalham atendendo o público. Só as instituições que detêm legalmente o poder de polícia é que o podem. Os chineses já sabem o valor do uso de máscara há muito tempo, basta ver o vídeo ao final deste post.

E a razão para a ação dos governos de todos os níveis em fazer cumprir tal obrigação é muito simples: no dia depois da pandemia uma nova vida se imporá, com novos padrões de higiene pessoal, com uma estrutura hospitalar muito mais bem preparada e, queiramos nós ou não, o uso de M&L será o melhor instrumento que teremos para enfrentar os próximos COVIDs, porque isto é o mais eficaz para a redução da transmissão do vírus.

As consequências que esta pandemia irá causar na humanidade serão tão devastadoras para a continuidade da vida dos sobreviventes que a discussão sobre quarentena, vertical ou horizontal, será considerada como um delírio de um passado a ser esquecido. 

Simplesmente o mundo levará alguns anos para recuperar o nível médio de qualidade de vida que existia até dezembro de 2019, independente de qual ele era. Ou somos instados pelo Estado a obedecer a determinados padrões de conduta em ambientes públicos, ou iremos assistir os miseráveis e desassistidos sendo enterrados em valas comuns; a ver regiões pobres ficando mais pobres; ricos vendo parcela de seus patrimônios virando pó; taxas de desemprego atingindo patamares jamais alcançados; falência de negócios (micro, pequenos, médios e grandes) varrendo o mundo; países que até aqui tinham no turismo internacional um importante gerador de renda nacional, tendo suas atrações antes repletas de gente, transformadas em locais desertos. Isto e outras consequências provocarão a mais profunda depressão econômica. A paralisação provocada pela quarentena como está posta, está afetando o mais básico fundamento da economia de mercado: a quantidade de transações monetárias em um dado sistema, ou seja, quanto menor o total de transações, mais pobre é uma sociedade. Onde não há uma dinâmica de troca de serviços e mercadorias todos perdem mesmo aqueles que no período de crise são enganosamente beneficiados, pois terão o patrimônio desvalorizado, seja em ações em bolsa de valores, em imóveis etc., tal como todos nós.

Esta é uma constatação, não uma crítica a qualquer estratégia. A tomada de decisão em situações críticas e, pior, quando envolve vida ou morte de cidadãos, é dificílima (assistir as aulas de Michael Sandel no YouTube). Chamo a atenção para a necessidade do reconhecimento de que outros vírus nos acometerão no futuro e que não poderemos estar tão despreparados, tão sem táticas de prevenção e proteção, como estivemos até aqui, pois não podemos ter uma outra crise econômica como a que enfrentaremos nos próximos meses. Uma resultante paralisação das atividades em todos os setores da economia simplesmente não poderá se repetir. 

A atual alternativa de quarentena só se justifica, grosso modo, porque: 1) a infra-estrutura de saúde não tinha (e ainda não tem) capacidade para lidar com o volume de casos que demandam assistência hospitalar; 2) a indústria de insumos para produção de equipamentos está nas mãos de pouquíssimos fornecedores; 3) a população não tem hábitos de higiene pessoal e de práticas de interrelacionamento e convívio social capazes de reduzir as chances individuais de infecção; e 4) a falta, no nosso caso, de saneamento básico para mais de 50% dos brasileiros.


O que esperar de todos nós, cidadãos e Estado, no futuro imediato? Como indivíduos teremos que incorporar como padrão novos hábitos de higiene: frequência em lavar as mãos com sabão, uso de M&L sempre que formos às ruas ou receber alguém em casa, lavar legumes e frutas ao chegar com as compras, colocar a roupa para lavar imediatamente, usar luvas de látex sempre que for manusear qualquer coisa quando fora de casa, evitar aglomerações tanto quanto possível, aumento da distância entre pessoas nas instalações das empresa, aumento do trabalho e da educação à distância, etc. etc. etc. E isto independente da existência de uma medicação eficaz e da descoberta de uma vacina. Assista ao vídeo feito pelos japoneses mostrando o que acontece quando não se usa máscara,

Se a minha descrição sobre nosso futuro cotidiano tem algum sentido, muito mais lógico e necessário que ficar em casa (relativamente poucos podem), é nos obrigarmos já ao uso de M&L, na rua, no trabalho, no convívio social. Errados estão todos que insistem em circular e trabalhar sem máscara como constatei hoje. Errados estão todos os empregadores que não disponibilizam M&L para seus funcionários conforme a característica de cada atividade. Errados estão os governantes que, como o Prefeito daqui, acaba de bloquear todos os acessos à cidade, sem ter, obviamente, a menor noção do dano que está causando a mais de 300 mil pessoas.

Em algum dia depois do COVID-19 virá o COVID-20 ou qualquer novo vírus com novo mnemônico. Nos dias depois, portanto, teremos que estar preparados e habituados às novas regras deste que será um mundo novo, cabendo a nós decidir se será maravilhoso ou ...


COMO AGEM OS CHINESES DE HONG KONG

OS TESTES QUE OS JAPONESES FIZERAM

DEBATE NA CNN EM 7/4/20

01/04/2020

A HIPOCRISIA DOS CANALHAS

Neste dia da mentira, cuja verdade em alguns países é a verdade da proibição de contar uma mentira, nunca os canalhas se mostraram tanto quanto até aqui. Desde o pedido de impeachment protocolado na Câmara pela deputada Sâmia Bonfim (PSOL-SP) - uma peça rara de hipocrisia a ser catalogada nos anais das idiossincrasias da República -, até os noticiários do grupo Globo embalando com carinho o "quanto pior, melhor", passando pelas decisões oportunistas e politiqueiras de governadores derramando sangue e fel pelo canto de suas bocas, todos manipulando o caos em proveito descaradamente próprio (nem mesmo se importam com o ridículo a que se expõem).

A democracia da deputada não cobre o direito de o Presidente ter opinião diferente dela e do grupo de "aloprados" que a convenceram a fazer o papel de boi de piranha, sem a mínima vergonha na cara de não irem junto, sabedores da piada de 1º de abril em dia errado. Os editores dos jornais do grupo Globo e os jornalistas sem-caráter, que por sincera adesão ou falta de coragem se recusam a "pedir pra sair", manipulam as notícias como aquela do Prefeito de Milão que se "arrependeu" de ter se manifestado inicialmente "contra o isolamento total", esquecendo-se, todos, intencionalmente, de informar o intenso intercâmbio desta cidade, centro ocidental de criação de moda, com Wuhan, centro Chinês de moda. Não informaram que o ano novo chinês, celebrado no dia 12 de fevereiro, levou os chineses residentes em Milão a viajarem para o feriado e da China voltarem devidamente infectados. Não bastando, não lembraram aos telespectadores o fato da estrutura de atendimento de saúde ser absolutamente insuficiente para tal volume de infectados. Já a performance midiática de Doria e Witzel atingiu os mais altos níveis que o ridículo pode alcançar. Creio que nas próximas eleições a que se candidatarem, as mídias sociais farão todos lembrarem do que fizeram neste 2020 de Covid-19.

Os canalhas oportunistas tentam transformar a visão de Bolsonaro a favor de uma quarentena menos restritiva, em mais uma ameaça dele à democracia, quando graças ao Presidente, graças à sua tenacidade, graças à sua tendência ao confronto de ideias, todo cidadão brasileiro está podendo, além de refletir sobre as melhores atitudes a tomar nesta crise monumental de saúde - tanto no âmbito pessoal quanto governamental -, expor o dano à sua situação particular frente à determinação radical de uma quarentena horizontal. A hipocrisia é tão grande, que fingem não enxergar que há muito estamos praticando um modelo vertical que vem se ampliando semana a semana. Categorias inteiras de atividade estão trabalhando até mesmo em ritmo muito mais intenso. Entre elas estão todos os profissionais da saúde, da segurança, da limpeza pública, do saneamento básico, caminhoneiros, restaurantes, todas as atividades da pecuária e agro-indústria, a cadeia responsável pela logística de levar o alimento do campo à mesa de cada lar brasileiro, supermercados, lotéricas, os moto-boys, os taxistas e uberistas, as farmácias, a indústria farmacêutica e química, a de equipamentos médicos e outros necessários à continuidade de atividades que simplesmente não podem parar, as empresas de tele/comunicação,  etc. etc. etc. Mas os derrotados por Bolsonaro ignoram os fatos que não lhes são convenientes, pois nada mais interessa além de atacá-lo.

O Presidente, com seu alerta sobre o momento imediato pós controle da pandemia - ele virá inevitavelmente - fez toda uma cúpula de governo pensar mais, buscar alternativa, se conscientizar mais, e descobrir o que realmente é prioritário fazer. Este é o caminho que estamos vendo o país seguir. É adquirindo novos hábitos de higiene pessoal e de proteção individual no interrelacionamento, insistindo na quarentena dos idosos e daqueles com comorbidades que interagem negativamente com este vírus, e os governos envidando todos os esforços e investimentos no aumento da capacidade da infra-estrutura de saúde, que poderemos ter os menores índices de mortalidade e as maiores chances de rápida recuperação econômica. Mas isto será péssimo para todos aqueles que tiveram seus interesses profundamente afetados pela perda do poder e pela honestidade intransigente e rude de Bolsonaro.

De certa forma estou fazendo chover no chão molhado, pois, apesar de nada ainda sabermos sobre esse "vírus do capeta",  creio que estamos aprendendo dia-a-dia a nos defendermos dele e, com certeza, dos eventuais (ou quase certo) próximos de mesma cepa. Prova disto, é o interesse que nesta semana as redes têm mostrado sobre o que Michael Sandel nos fustiga com suas palestras na Harvard University. Para mim é quase surreal ver um mundo de gente se dando conta de que tomar decisões em situações que envolvem um ou mais de um outro, não é uma tarefa fácil. Tudo graças a uma quarentena forçada que nos obriga a pensar filosoficamente, a discutir questões éticas que nosso cotidiano não nos permite fazer.




Augusto Nunes: https://noticias.r7.com/jr-na-tv/videos/augusto-nunes-nenhuma-outra-doenca-tem-destaque-no-noticiario-monopolizado-pelo-coronavirus-30032020

24 palestras de Michael Sandel: Qual a coisa certa a fazer?
https://www.napratica.org.br/5-palestras-sobre-etica-leis-e-justica-pelo-mundo/