26/11/2020

A MENTIRA DAS “FAKE NEWS”


“Refletir é incomodar os pensamentos.”

Evaristo Miranda, diretor da Embrapa, em 2020.

 

Fake é falso e news é notícia. Conclusão: “fake news” significa “notícia falsa”. Ou seja, não significa “notícia mentirosa”. E será que existe diferença entre mentira e falsidade? Pesquiso e aprendo que há, sim, uma sutil diferença entre mentira e falsidade. Vamos ver esta questão antes de continuarmos.

No que interessa a este exercício de reflexão, a mentira é dita por quem sabe a verdade, enquanto a falsidade é uma fala desprovida do conhecimento do fato, ou seja, a falsidade existe basicamente por ignorância, enquanto a mentira encobre um fato que não se quer que outros saibam, mente-se, portanto, na intenção de se auto proteger.

O problema básico da mentira é que, para não ser desmascarada, ela precisa: primeiro, estar bem estruturada; segundo, que não surjam fatos novos que não se encaixem com a versão contada; e, terceiro, que surtam os efeitos desejados antes que haja  tempo e circunstâncias para que os fatos venham à luz. Era assim na era analógica em que as sociedades viviam. Não é tanto mais assim. Como a digitrônica nos dá acesso a quase tudo de relevante para nossa vida cotidiana com dois ou três cliques, tudo se descobre muito, muito mais cedo do que tarde. As pernas da mentiram nunca foram tão curtas!

Uma das marcas dos anos 1950 foi a febre da ufologia. Apareciam discos voadores por todo canto. No Brasil, o aparecimento mais famoso foi em maio de 1952, na Barra da Tijuca, documentado por uma dupla (jornalista e fotógrafo) da revista O Cruzeiro. Como veio a se confirmar, uma reportagem mentirosa relatando uma “aparição” criada para vender mais revista. Não deu cadeia pra ninguém. Até os militares embarcaram na mentira. Ou seja, mentir para atingir um dado objetivo, vem, provavelmente, dos tempos em que o homem das cavernas usava a mentira como expediente para justificar sua ida na caverna da vizinha!

E a falsidade! Há que voltarmos à definição que dei acima: é um relato que independe do conhecimento do fato, ou, o que ocorre com certa frequência, quem falseia não quer conhecer o fato sob o risco de se ver tachado como um mentiroso. A ignorância é uma realidade na história da humanidade pelo simples fato de que, se era impossível aos Neandertais saberem da existência dos homo Sapiens, muito, muito menos agora que a amplitude dos fatos é milhões e milhões de vezes maior que então. Tal complexidade veio a calhar como circunstância favorável para aqueles que a utilizam como proteção vantajosa por psicopatas, fracos e/ou mal intencionados. 

Precisamos ver uma outra questão. O que é “opinião”? Na internet, a “mãe dos ignorantes”, encontramos que é a manifestação de um “julgamento pessoal; parecer”. É, no popular, o tão proclamado “eu acho”. “Eu acho” que no STF só tem gente interessada em si mesma. Isso é uma suposição? Um julgamento pessoal? É uma falsidade? Você acha? É a sua opinião. Não é a minha! E agora? Se fosse preciso que você e eu provássemos nossas opiniões a partir de nossas percepções, então, consequentemente, perderíamos o direito de manifestar opinião sobre o que quer que nos apresentasse para um julgamento mundano. 

Toda opinião está impregnada de alguma “falsidade”. É uma condição inerente à percepção, sentimento que a sustenta. Percepção tem um cordão umbilical com suposição, pela simples realidade de não estar calcada no conhecimento dos fatos. Qual o principal ingrediente das fofocas cotidianas se não “opiniões” cheias de suposições,  falsidades, a partir dos interesses de quem as emite? A nova era, ao nos tornar a todos "eceptores", nos deu o poder de "carimbar" com o rótulo de "fake" toda notícia que eu não desejo ver compartilhada. Não é um algo que possa ser conceituado. É simplesmente um instrumento político a serviço, fundamentalmente, dos que são adeptos de uma visão distorcida, míope, neurótica, de como realmente se comporta a humanidade.

Exposto isto há que se perguntar por que diabos estamos envolvidos em uma discussão maluca sobre coisas tão óbvias?

Acontece que a expressão “fake news” veio ao encontro dos interesses táticos dos que desejam subjugar os povos a todo custo. Na base dos motivos e do perfil dos integrantes deste grupo, vamos encontrar: comunistas frustrados com a derrocada da União Soviética;  o movimento pendular das insatisfações populares; o globalismo invasor das autonomias das nações; o recrudescimento da intolerância religiosa; o advento da digitrônica; o consequente derretimento do sistema democrático como estruturado até aqui; chegando à reação visceral das oligarquias perdedoras de poder, em especial, das mídias tradicionais até então exclusivas e poderosas fontes manipuladoras da interpretação dos fatos sócio-político-econômicos.  

A par das reações da “grande mídia” para a qual não interessa o que é dito, mas sim por quem é dito, surgem as plataformas das mídias sociais censurando cidadãos e empresas, através do bloqueio de conteúdos, simplesmente porque estão fazendo o jogo de políticos e juízes de todas a instâncias, que se coordenam para defender um status quo ameaçado pela nova era. Para atingir seus intentos, adotam ações que afrontam a constituição, desrespeitam a hierarquia jurídica, invadem os limites da alçada de cada poder, criminalizam sem acusação a manifestação de opinião, chantageiam empresas com as ameaças que lhes estão à mão. Neste processo, tudo pode e deve ser rotulado como “fake news” se não for do interesse da “patota do selo azul” (expressão proposta por Rodrigo Constantino). A hipocrisia saiu do âmbito das relações interpessoais e de instrumento de políticos, para subir muitos degraus na escala de usos, e aboletou-se no trono da soberba, e, ditatorialmente, tenta determinar as percepções de todos nós. Eu espero que o silêncio que se abateu tanto sobre o “inquérito do fim do mundo”, quanto o projeto de lei das “fake news”, já aprovado pelo Senado e atualmente na Câmara, signifique que os envolvidos estão percebendo que são intenções autoritárias, ditatoriais e, portanto, nada pode ser mais antidemocrático do que reprimir os legítimos direitos dos cidadãos emitirem suas próprias opiniões e avaliações sobre nossas instituições e seus representantes, isto sem considerar a absoluta impossibilidade de se estabelecer o que possa ser uma simples opinião e o que possa ser uma opinião criminosa!!!

O que você acha disto: os “antifas” acusam (e oprimem) os não adeptos de... “fascistas”, numa evidente afirmação e ação... “fascista”!!! Radicais esquerdistas vão às ruas em manifestações "pacíficas" de violência, portando faixas proclamando estarem em “defesa da democracia"!!! E mais. Só existem “fake news” nas mídias sociais, enquanto as mídias tradicionais são unânimes em falsear as notícias ao bel prazer de seus orgulhos feridos e sem qualquer constrangimento ou escrúpulos, pois reacionários à perda do poder.

Não nos iludamos. A campanha de "Combate às notícias falsas" é uma "cortina de fumaça" utilizada por perdedores nos processos democráticos pois têm a convicção de que o "povo não sabe votar" e que a "verdade" está com eles. Em que parte da história política foi necessário "combater" com polícia e leis a emissão e transmissão de falsidades? Isto sempre foi uma tarefa do tempo e dos indivíduos em sociedade. Não do Estado. Nas exceções, foi ação de governos de exceção para impor suas "impróprias" mas adequadas "verdades"!!! Quais serão os critérios a serem utilizados pela agência de checagem criada pelo governo do Ceará cujo objetivo anunciado é o "estabelecimento da verdade (sic) em temas ligados à administração estadual"? Ou eu sou um idiota ou isto é um instrumento de regimes neofascistas! Existe uma outra campanha debilóide circulando que pede algo singelo: "Se for fake news, não transmita"Só pro macaco entender: 1) Como eu descubro se é uma notícia que eu não devo compartilhar? 2) Ah! Já sei, eu devo consultar antes o "sleeping giants" (1), ou alguma agência de checagem "tendenciosa de fatos" (2). Hum, agora entendi! Só não entendi se a OMS emitiu notícia falsa quando induziu os países a adotar o "fique em casa", inclusive os alunos em idade escolar, e agora defende a volta às aulas!!! 

Se a mentira ufológica foi um “must” dos anos 1950, “fake news” será um dos “trending topics” dos anos 2020. Não entre nessa, pois cada acusação ou rotulagem de qualquer notícia como "fake" que alguém faça, está colocando uma gota num copo que, inevitavelmente, vai transbordar. Só ainda não se sabe quando.

O que se passa, portanto, no mundo, é o questionamento que uma geração faz sobre os valores da sociedade ocidental construídos pós revolução industrial, duas guerras mundiais com dezenas de milhões mortos, algumas pandemias, um risco de guerra nuclear, fantásticas descobertas que duplicaram a expectativa de vida em 70 anos, e um pacote de soluções tecnológicas que melhoraram incrivelmente os índices de qualidade de vida em todo o mundo.  Tal geração de ignorantes da história compõem um movimento sem líderes buscando direção e unidade onde só há fragmentação de causas de minorias cujos anseios não são comuns e por isso não ganham liga, não se "colam". Sobra apenas um inconsistente discurso da "discriminação" que usa a discriminação para encontrar "culpados" de suas fraquezas psicológicas. Isto nada mais é do que a prática do "dividir, enfraquecer, dominar" (3). Para estes, a digitrônica veio a calhar. Fazendo de cada cidadão um produtor e distribuidor de informação (falsa, mentirosa, verdadeira, interesseira etc.) virou de ponta cabeça o mundo das grandes corporações de mídia. Permitindo tal distribuição e o "feedback" instantâneo, as consequências das notícias deixaram de habitar o admirável mundo da manipulação da opinião pública. Neste ambiente, tal como o Corona-vírus, o contágio se dá por clique-contato e a infecção intelectual varia desde a não percepção de sintomas até a internação em UTI, prévia da falência dos neurônios. Mas se não tem líderes, a Grande Rede está repleta de "celebridades" apoiadoras, uma elite que viveu (e vive) às custas de fontes de renda herdadas de seus ascendentes ou do Estado protetor, onde o uso da máscara de "humanitário" progressista é de uso obrigatório, pois esconde a hipocrisia das intenções só admitidas entre quatro paredes da Champs-Elysées. Não há proposição, apenas contraposição. Não querem construir, apenas destruir para ver no que vai dar. Mas é só dar uma olhada na história para se certificar e prever que quem vai pagar pela insanidade psiconeurótica dessa turma, serão os milhões de cidadãos-ovelhas que serão usados como bucha de canhão. Cruzo os dedos para que antes dessa hora tenhamos ganho, tal como desejado em relação ao Corona, imunização de rebanho.

Exposto isto, abandono eu, e sugiro que você abandone também, a utilização da mentira “fake news”, e utilize somente nossa tupiniquim “falsidade”. Com esta atitude fica mais fácil identificar o que realmente está acontecendo, imaginar o que pode vir a acontecer e se posicionar quanto ao que se vai fazer.

Espero, mais uma vez, tê-lo ajudado a evoluir em sua percepção sobre o que nos espera, e, adicionalmente, enxergar com certa dose de saudade como era nosso maravilhoso mundo velho!

(1) Atenção: ninguém sabe até agora (nov/20) quem são os responsáveis por trás desta "entidade" que emite lacrações de modo absolutamente anônimo, o que é proibido pela Constituição, e, no entanto, não foram incomodados pelo STF: https://twitter.com/slpng_giants_pt. Dê uma olhada nesta matéria da Gazeta do Povo.

(2) Agência Lupa, ligada à Folha, se intitula "a primeira agência fact-checking do Brasil" https://piaui.folha.uol.com.br/lupa/

(3) Para uma ideia clara do que isto significa assista aos 3 episódios da série "As grandes minorias" produzidos pelo movimento Brasil Paralelo. Aqui o primeiro capítulo, "Os Antifascistas". Não faça isto depois de se alimentar pois o risco de vomitar é alto.

Livro  https/ecclesiae.com.br/inquerito-do-fim-do-mAuiundo


Olha só quem está em primeiríssimo lugar!!!

Mas esta é uma coisa que a "patota" quer evitar a todo custo! 

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20/11/2020

MUNDO NOVO, ADMIRÁVEL OU ABOMINÁVEL? – O FUTURO


A existência de uma ditadura depende da ignorância da massa.

Ryszard Kapuscinski, jornalista polonês


Não tenho bola de cristal, não sou vidente, nem profeta do apocalipse. Vejo o presente, e com a vivência e mínimo conhecimento histórico, faço cá minhas deduções. O que percebo é um futuro que, se não for negro, se avizinha com contornos cinzentos.

O FUTURO NAS REDES SOCIAIS

Uma tecnologia imaginada para ser libertadora é hoje uma ferramenta castradora do direito à livre manifestação de opinião, e manipuladora da “verdade” para atingir objetivos econômicos e políticos tanto de indivíduos quanto das oligarquias, independente das ideologias, dos regimes políticos e do nível de psicopatia de quem dela faz uso. A quantidade e a intensidade das arbitrariedades estão em plena escalada. De indivíduos postando nas redes sociais ataques grotescos a quem emite opinião divergente, a ministros da suprema corte criando um inquérito “das fake news” que só reprime aqueles alinhados com o presidente da república, passando pela absurda censura promovida pelas próprias plataformas motivadas pelo medo de possíveis ações de uma justiça que tem olhos bem abertos para a proteção de seu próprio umbigo. Como escalada não vai parar por aqui. Não me arvoro determinar como isso acabará, mas uma tendência só arrefece quando atinge um ponto tal de saturação que dá razão, incentivo e momento para uma tendência contrária se mostrar viável.

Para ilustrar a nuvem de confusão que paira nos neurônios de dirigentes ao redor do mundo, vejam o que vi. Ao acessar um conteúdo no site da Folha, me deparei com um banner com a seguinte mensagem: “Vamos combater as notícias falsas. Para vencermos isso juntos, o Whatsapp, 1, limita o compartilhamento de mensagens altamente encaminhadas, 2, mostra quando uma notícia é encaminhada, 3, limita o número de participantes nos grupos”. Aguarde para breve a ação 4, 5... Não existe lei, apenas o aplicativo só aceita que você se comporte do jeito que eles (dirigentes) querem. Releia prestando muita atenção! O que considerávamos ser uma questão técnica é reconhecido publicamente pela plataforma como ações que visam impedir ou limitar a liberdade de expressão e opinião. O motivo declarado é “combater as notícias falsas”!!! Afora o fato de “notícia falsa” ser sempre aquela que vai contra os interesses do julgador, independente de o fato abordado ser falso ou não, para a dita plataforma TODA notícia, ou melhor, TODA mensagem distribuída nela é falsa, bastando considerar que as restrições valem para TODAS as mensagens!!! (1)

SEGURANÇA NO USO DA TECNOLOGA DIGITRÔNICA

Você já percebeu como se tornaram corriqueiras as tentativas de invasão de celular? E as invasões em computadores? E o sequestro de dados para posterior pedido de resgate? E quantos desses casos você tem visto as polícias chegarem aos autores e a justiça os condenar? O número de ataques para roubo de dados bancários cresceu 43% no primeiro semestre de 2020!!!  Se a impunidade é o combustível da criminalidade, que nível de caos o sistema financeiro terá que atingir para que algo (que algo?) seja feito?

AINDA HÁ SENTIDO NO CONCEITO DE PRIVACIDADE?

Não creio. Sou mais por considerar que privacidade pertenceu ao mundo analógico quando palavras como discrição, recato, humildade, proteção da intimidade, eram valores aplaudidos e copiados. Se na segunda metade do século XX, o auge era ter seus 15 minutos de fama, o êxtase nesta primeira metade do XXI já é ter “seguidores” (meu neto me confessou ontem que já tem 5!!!). Isso à custa de expor boa parcela de sua intimidade, deixar a humildade para os fracos e exaltar seus feitos, por menos relevantes que sejam. Sempre haverá uns tantos para lhe dar umas bajuladas, umas escovadas no ego e uns necessários “likes”.

O COMÉRCIO ELETRÔNICO

Enquanto o comércio eletrônico cresceu e ainda cresce na pantrônica, a parte da classe média oriunda do pequeno comércio está sendo dizimada. O  hábito de comprar pela Rede é cada dia mais praticado. No futuro não será mais necessária uma pandemia para nos trancafiar em casa, vai ser uma opção voluntária. Tudo pelo whatsapp, transportado por Uber Eats, pago com Betoni e via Pix! Espelho meu, há um ser mais digital do que eu!?

AS MÍDIAS TRADICIONAIS

Perderam seu poder. Num processo de negação pela morte anunciada, manipulam e distorcem os fatos numa tentativa desesperada de enganar uma audiência em declínio(2).  O tempo encurtou para tudo. Não temos mais tempo/saco para ler e as revistas e os jornais impressos veem suas tiragens despencarem vertiginosamente (bancas fecham ou viram lojinha de bugigangas). Queremos informação rápida, mastigada, sintetizada, e isso é o que obtemos tanto nas redes sociais quanto nos canais do Youtube. A Netflix me entrega via Smart TV, filmes, séries e documentários muito superiores às “antigas” novelas da rede Goebles. Sair de casa pra quê? Correr o risco de ser assaltado por algum excluído da digitrônica? Tô fora!

O HOME OFFICE

O espaço encurtou para os profissionais qualificados. Eles não precisam mais de salas, mesas, cadeiras, secretárias, contínuos, pois muito pode ser feito pelo computador no sofá de suas casas, ao som das arruaças das crianças e dos reclamos da mulher, quando as há. Quando não, fiquemos na companhia de uma obrigatória solidão tediosa. O home office, se não vai ficar do jeito e intensidade que está, veio para ficar. Se arrumar, pegar o buzão ou enfrentar um engarrafamento, andar uns quarteirões, dar alguns bons dias, trabalhar no convívio com os pares, chefes e subordinados, e “discutir o futebol”, será exclusividade dos menos qualificados.

ENSINO

Vou pular as questões "escola sem partido" e "ideologia de gênero" por imbecís de mais que são por si só. Atentemos apenas para o conteúdo curricular que já vem sendo questionado há muito tempo. Com a digitrônica, o ensino (abrangendo o professor, o aluno, o conteúdo e a disciplina) tal como até aqui, morreu, só ainda não contaram para o corpo docente, principalmente dos vinculados ao Estado, por causa do risco de uma rebelião por ameaça de perda de privilégios. Existem apenas duas matérias a serem aprendidas: língua pátria e posturas e cuidados no trato com a digitrônica. O resto, se aprende pesquisando, clicando e copiando quando a necessidade exigir.

DEMOCRACIA EM CRISE INTESTINAL

A democracia analógica derrete enquanto nada é proposto como alternativa. Minorias se multiplicam por todos os lados ocupando os espaços que uma maioria desarticulada não encontra seu ponto de unificação. Estamos nos confrontando com uma sociedade do mimimi – a moda pós a do politicamente correto. Jovens de iPhone clamam por uma igualdade di direitos que significa reivindicar uma igualdade de privilégios sem custo, caídos do céu, ou vindos da “nuvem”, ou, em última instância, usurpado de quem ralou para conquista-la (3). Só não dizem quem paga a conta, pois imaginam que “vaca dá leite” (4). Em síntese, não há como a democracia, tal como estruturada até aqui, conseguir se sustentar sob o ataque da dinâmica da comunicação digitrônica.

Não sei como será o futuro, mas não gosto de imaginar a evolução do que vejo neste meu presente. Não por mim, que não estarei mais por aqui, mas meu coração fica pequenininho quando penso nos filhos e netos de todos nós.

Deixo agora você com seus ícones, teclas e toques a pensar num futuro quase presente. De minha parte penso que não será abominável porque o ser humano é absolutamente resiliente, por esta característica é que eu e você existimos, mas temo, sinceramente, que não será admirável.

(1) Em Admirável Mundo Novo, há um diálogo em que o personagem Diretor afirma que o segredo para a felicidade e virtude dos cidadãos é “fazer as pessoas amarem o destino social do qual não podem escapar”.

(2) Sobre inversão de fatos lembro Bonner e Maju. 

(3) “No final, tudo se resume ao mesmo objetivo: um grupo querendo viver à custa do outro; um grupo querendo confiscar a renda do outro; um grupo querendo tolher a liberdade do outro em prol de seus "direitos".” Lew Rockwell, é chairman e CEO do Ludwig von Mises Institute.

(4) Assista este trecho de uma palestra do Mário Sérgio Cortella.

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12/11/2020

MUNDO NOVO, ADMIRÁVEL OU ABOMINÁVEL? – A FASE PANTRÔNICA


A pandemia da COVID-19 introduziu, no processo de desenvolvimento da digitrônica, uma variável nova, não esperada, de amplitude global, e com um poder de transformação social e econômico ainda não dimensionado corretamente. Desconsideremos a origem do vírus, as razões que o levaram a se expandir e todas as teorias de conspiração. Vamos partir de um olhar sobre a inter-relação entre a digitrônica e esta pandemia, para chegar à projeção de um futuro próximo onde se imagina virmos a adotar novos padrões de comportamento na condução de nossas vidas.

Alguém estimou recentemente que a pandemia acelerou o processo de expansão dos padrões digitrônicos em pelo menos 5 anos. É provável. A aceleração provocada pela velocidade de propagação do vírus, associada ao total desconhecimento sobre seus efeitos e inexistência de tratamento, trouxe para o debate em rede gente de todos os lados, nível de formação/conhecimento, matizes de pensamento, posicionamento político, correntes de pesquisa etc.

O surgimento de “youtubers” nestes últimos 8 meses foi explosivo. Em muitas áreas. O confinamento nos tirou dos espaços - praças, ruas, trabalho, bares, futebol etc. - onde nos reuníamos para nos informar, opinar e protestar, e nos limitou a uma tela – de celular, notebook, computador e/ou televisão –, apresentando um rosto, muitas vezes desconhecido até então, com o qual passamos a dialogar, discutir, e tomar como fonte primária de informação.

A pantrônica é a fase da digitrônica em que nos foi proposto/imposto um mundo confinado entre nossas próprias 4 paredes, condenados a um não-viver, sentenciados sem sentença, sem recurso, e sem um “Supremo” que nos salve. A pantrônica nos colocou em quarentena indeterminada e trabalhando em nossas instalações caseiras (e precárias para a maioria dos brasileiros), junto com nossos filhos apartados do acesso à formação e ao conhecimento, num convívio novo e difícil para pais e filhos. Ela nos tirou beijos, abraços, carícias, cumprimentos, inter-relações e proximidade. Se aumentou o convívio matrimonial, expôs rusgas, diferenças, desavenças, aumentou o número de divórcios, de suicídios e de agressões físicas. 

Por conta e ordem de governadores e prefeitos, boa parte da classe média formada pelos comerciantes de pequeno e médio porte ruiu, faliu, e, tendo dilapidado um patrimônio amealhado por anos, migrou para um ou mais degraus abaixo na escala socioeconômica. Destruiu quase que totalmente um setor inteiro, o de viagens (a trabalho e turismo). Consequentemente, os gigantes da indústria da aviação devem estar às voltas tentando descobrir para onde ir. Você já parou para imaginar quando vai ser preciso construir novos aviões tendo milhares parados em solo e demandando manutenção? Para não acusá-los de não serem equânimes, e já que não faziam mesmo parte da "força de trabalho" formal, jogaram a quase totalidade dos trabalhos informais nos programas assistenciais do governo federal. Nem catador de latinha ficou de fora.

A pantrônica expôs de um modo chocante a hipocrisia dos políticos, seus interesses escusos, a crueldade da corrupção que não arrefece nem quando se trata da saúde dos cidadãos, evidenciou a “guerra” entre nações e a intolerância religiosa perigosa e assustadoramente crescente.

A pantrônica nos oprimiu. Aos reagentes à detenção involuntária, por desobediência civil ou por necessidade de sobrevivência, nos impingiu o uso de uma máscara ineficaz quanto à proteção de nos infectarmos, mas que cumpre o papel de nos lembrar segundo a segundo que somos manipulados por um poder disseminado, distribuído por cidadãos cooptados pelo medo. Pelo medo, me sinto no direito de apontar o dedo, ou a voz, para aquele que não a está usando. Pelo medo de ser acusado como responsável por alguém ser contaminado, dirigentes de empresas contratam “fiscais da moral do comportamento social” para se postarem nas portas de suas instalações armados de spray com álcool e medidor de temperatura (ai de você se se negar a ser submetido!).

A pantrônica colocou nos “trading topics” das discussões políticas o que há décadas é discutido sem que se tenha um consenso: a renda mínima para a população dos excluídos da vida econômica moderna. Não só. As pessoas não tendo coisa melhor para fazer no enclausuramento forçado, voltaram debater sobre escola sem partido, ideologia de gênero fora e dentro das escolas, cotas raciais para tudo etc.

A pantrônica não vai terminar tão cedo por mais cedo que se tenha uma vacina amplamente testada, eficaz e segura. É só você fazer um exercício básico. Comece imaginando quando se iniciará um processo de retrocesso nas medidas autoritárias a que estamos submetidos. Depois, tende desenhar um plano para tal desarticulação (lembre-se das idas e vindas que já estamos assistindo em muitas cidades) e acrescente aquela variavelzinha sempre incômoda: o tempo. Não pare por aí. Vá juntando um fato científico aqui outro ali, para descobrir que imunizar 7,5 bilhões de indivíduos vai levar certo tempinho. E acrescente a cerejinha do “cupcake”: os debates acirrados sobre a aplicação voluntária ou compulsória da “vachina” ou que outro rótulo ela venha ganhar.

Finalizando. A “combo” promocional China-vírus-disseminação-políticos-pseudocientistas-medo-de-morrer, vai levar muitos anos para sair de oferta. Façam suas apostas.

Na próxima semana (acho que finalizo esta série) trato, finalmente, de como poderá vir a ser um mundo possível próximo: admirável ou abominável?

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06/11/2020

MUNDO NOVO, ADMIRÁVEL OU ABOMINÁVEL? - O ECEPTOR (complemento)

No mundo analógico e desconectado, éramos hora emissores, hora receptores. No mundo digitrônico somos simultaneamente ambos, pois, na maioria das vezes, não há espaço temporal entre uma condição e outra. Quando clico num link com o objetivo de obter uma informação, a mesma ação está sendo armazenada para todo o sempre em um ou vários bancos de dados sediados sabe-se lá onde, informando para outrem uma preferência minha (a sexual em particular), uma característica, um desejo, meu provável posicionamento político etc., e tudo isto para ser avaliado por um algoritmo a serviço de interesses futuros daquele tal “outrem”. Isto aconteceu só porque dei um clique no mouse!!!??? Muito menos que isso. Agora basta ser um vivente digital em alguma medida (ter um celular, um notebook etc.) para que sua, até recentemente, tão valiosa privacidade vá para as cucuias nos servidores na nuvem. Privacidade? Esquece, isto num futuro não tão longínquo vai ser considerado coisa da "pré-história digitrônica".    

Como eceptores, estamos deixando de ser cidadãos como entendido até então. Cidadão deixa de ter um significado político, aquele que atua na sociedade como agente crítico e reivindicador de direitos, e passa a ser aquele que tem seus dados armazenados na nuvem. Se você acha que estou exagerando, lembro que agora, para o Estado, só existe quem ele pode enxergar, atingir através da tecnologia digital. O indivíduo que ainda vive no analógico simplesmente deixou de existir, ou virou “alma penada”, “walking dead”. É muito difícil e caro chegar até ele. Saber suas opiniões. Identificar suas necessidades. Políticas públicas agora são definidas a partir de uma estatística sobre o que é postado nas redes sociais: top 5, top 10, “likes”, “dislikes” e “trending topics”, cancelamentos e lacrações.

O poder, antes oligárquico, se tornou anárquico. Temos todos uma cota de poder, individual ou coletivamente. Quando postando, posso criticar qualquer um, sobre qualquer assunto, usando qualquer tom, ignorando as consequências do que e como o faço. Revestido de uma capa preta, posso determinar que alguém seja preso pelo simples motivo de que não gostei do que alguém disse sobre mim. Como Supremo, posso determinar que uma plataforma de rede social elimine mundialmente todo o conteúdo publicado por um desafeto “da minha instituição”. E se a plataforma se negar, ameaço-a com multas diárias e de impedi-la de atuar no país. Mas nem precisa do "Supremo". A própria plataforma digital pode se arvorar direitos de censura, bloqueio e eliminação , bastando que o CEO da ocasião (ou mesmo o PLH, Programador Lacrador da Hora) achar que fere suas susceptibilidades, de sua comunidade religiosa ou política, ou, até mesmo, interesses particulares. Ou, como fez o Whatsapp, simplesmente impedir que você compartilhe o que quer que seja com mais de 5 destinatários!!!

Como eceptores, podemos nos contrapor a qualquer opinião, de qualquer origem, com qualquer nível de intensidade e ênfase, a tudo e a todos instantaneamente. A opinião do especialista (em qualquer área do conhecimento) é contestada pelo leigo, ignorante, com a força de um “acho” ou da referência a um estudo fajuto qualquer que "alguém" postou no Facebook. E a opinião moderado passou a ser vista como sendo de um “passador de pano” e merecedor dos imediatos ataques raivosos de militantes, engajados ou simpatizantes. Isto sem nenhuma necessidade de aprofundamento de argumentos. Tudo é “resolvido” com uma dialética absolutamente superficial, rasteira e pobre de argumentos. 

O lembrete de “você está sendo manipulado” tinha sentido na era analógica quando principalmente os governos utilizavam a “grande mídia” para manipular o voto e tentar direcionar a vontade popular para seus objetivos. Agora é apenas motivo de riso. Antes você ainda tinha a possibilidade de, ao ser lembrado, se esquivar, reagir, contestar, processar, etc. etc. etc. Todos esses direitos não existem mais. A prova é o inquérito sigiloso das “fake news” ou “inquérito do fim-do-mundo” conduzido pelo “sinistro” Alexandre de Moraes que mandou prender sem acusação, apreendeu instrumentos de trabalho, impediu acesso dos advogados aos autos, não dá satisfação a ninguém e, sem ficar vermelho, confronta a Constituição e todos os direitos consagrados e normatizados pelo arcabouço de nossas leis.

Ah! Você vai exclamar, mas agora nós temos acesso a muito mais informações, a muitas fontes de diferentes opiniões, e isto nos dá um poder que nunca tivemos. Correto. Só tem um pequeno detalhe. Ai de você se não se comportar direitinho.


Na próxima semana, adiciono a pandemia da COVID-19 e analiso este período intermediário ao qual vou me referir como a fase da pantrônica. Até lá.

30/10/2020

MUNDO NOVO, ADMIRÁVEL OU ABOMINÁVEL? - O ECEPTOR

Até o final da Idade Média fomos essencialmente receptores, meros objetos dos detentores do poder. A partir do Renascimento nos vimos emissores ao podermos manifestar nossos sentimentos, desejos e necessidade, acreditando termos alguma relevância no contexto político. Nesta nova Era Digitrônica (ED), não existe mais uma separação entre estas duas condições opostas de participação no mundo, pois ambas são praticadas simultaneamente. Se clico o faço instado por uma mensagem recebida e se a recebo o foi porque anteriormente impulsionei um envio qualquer. Somos, portanto, emissores e receptores ao mesmo tempo, a condição do vivente do século XXI a que estou me referindo como a de um "eceptor".

Na ED, independente de nossas ideias, opiniões, crenças e valores, somos alvejados ininterruptamente por mensagens cuja autoria não temos, na maioria dos casos, como identificá-las, assim como somos alvo de notícias de “fatos” sobre os quais não temos ou tempo ou recurso para checar sua veracidade, mas que têm a finalidade de nos fazer acreditar em uma narrativa de interesse político ou econômico do emissor. Nesta nova era a tudo podemos ter acesso e estamos expostos ao acesso de todos. A toda mensagem recebida há que se responder, responder imediatamente, sempre opinar, mas consciente da bolha em que o tema está inserido sob pena de, se discordar, afrontar o pensamento lacrador e ser impiedosamente cancelado, bloqueado, eliminado. Se há, portanto, uma acusação de só falarmos dentro e para uma bolha, ela se justifica não tanto pela necessidade de “likes”, mas muito mais pelo receio de sermos acusados do que não somos. Os limites impostos pelas normas de convívio presencial, cara a cara, não existem na comunicação à distância, sem rosto, sem endereço, e, até mesmo, sem identidade.

Se a “grande rede” colocou em nossas telas o mundo todo e tudo do mundo, as redes sociais nos propiciaram um maravilhoso mundo novo onde tudo é mais rápido, mais fácil e mais barato.  Mas não há ponto sem contraponto. Por outro lado, estamos vivenciando uma degradação paulatina das liberdades (de expressão, de ir e vir, de educar os filhos etc.). Percebo em andamento um processo consequente de “acovardamento do cidadão perante o Estado” que tudo quer criminalizar, o que é temeroso, pois uma “sociedade amedrontada troca liberdade por segurança”, lembrando que segurança não é algo real, é tão-somente uma sensação.


A arbitrariedade e o autoritarismo se manifestam em todos os segmentos da sociedade (político, econômico, social e cultural) e em qualquer parte do espectro (à direita, à esquerda, ao centro, e ao muito-pelo-contrário). O “politicamente correto” evoluiu para um estado de transcendência, se tornou uma religião sem líder, sem ritos, sem templos, mas equipada por uma tropa de elite comprometida com a coerção total.


O STF, cuja função primordial, seria proteger a Constituição (independente de julgamentos pessoais de se é boa ou má), a afronta quase diariamente por decisões monocráticas de pseudos juízes (ou editores como definiu um deles) de tudo, ignorando o papel do legislativo e obstruindo legítimas ações do executivo.


Os correios e as companhias telefônicas jamais foram responsabilizados pelo conteúdo do que transitava por seus canais. Na ED, como tudo é gravado e passível de ser recuperado para qualquer fim, qualquer interesse, as empresas e plataformas tecnológicas passaram a ser responsabilizadas por tudo aquilo que é “postado” e armazenado em suas bases de dados. A “consequência inevitável” é que, para se protegerem das arbitrariedades do Estado (lembremos o que Alexandre de Morais exigiu do Facebook e Twitter) elas passaram a se antecipar e se auto-assumiram como censoras do mundo digital. A exemplo da Igreja na Idade Média, cada uma cria seu próprio “Index” de palavras e temas que não podem ser citados ou abordados e, caso o desavisado o faça, é imediatamente banido da plataforma.

Não bastando, o advento das “fake news” – a que vou atribuir a função de servir como aranha(1) -, motivou o surgimento de empresas e organismos não-governamentais, com a nobre tarefa de nos proteger de tão perniciosos conteúdos. São as chamadas “agências checadoras” que se propõem a verificar a veracidade do que circula na web. Tais checadoras são, na essência, agências censoras a serviço do interesse político ou econômica das entidades que as controlam. Exemplo maior no Brasil é a tal de LUPA ligada ao grupo Folha.


Entidades supranacionais, organismos internacionais e empresas multinacionais, “lacram” qualquer outro (pessoa, empresa, ou governo) que não adote “suas  verdades” por mais não-verdades que elas sejam, se colocando acima da autonomia/soberania das nações, numa busca alucinada pela pasteurização cultural e implantação de um poder único e uma ordem única global.

Fico por aqui. Na próxima semana finalizo esta investigação sobre a nossa nova identidade como cidadãos deste mundo em que a cada dia faz menos sentido dividi-lo em duas culturas, a ocidental e a oriental.

(1) Apontar uma aranha atrás de você é a técnica para desviar seu interesse daquilo que não querem que você tenha interesse em saber. Para entender como funciona, assista este vídeo do Lacombe com o médico Alessandro Loiola