30/10/2020

MUNDO NOVO, ADMIRÁVEL OU ABOMINÁVEL? - O ECEPTOR

Até o final da Idade Média fomos essencialmente receptores, meros objetos dos detentores do poder. A partir do Renascimento nos vimos emissores ao podermos manifestar nossos sentimentos, desejos e necessidade, acreditando termos alguma relevância no contexto político. Nesta nova Era Digitrônica (ED), não existe mais uma separação entre estas duas condições opostas de participação no mundo, pois ambas são praticadas simultaneamente. Se clico o faço instado por uma mensagem recebida e se a recebo o foi porque anteriormente impulsionei um envio qualquer. Somos, portanto, emissores e receptores ao mesmo tempo, a condição do vivente do século XXI a que estou me referindo como a de um "eceptor".

Na ED, independente de nossas ideias, opiniões, crenças e valores, somos alvejados ininterruptamente por mensagens cuja autoria não temos, na maioria dos casos, como identificá-las, assim como somos alvo de notícias de “fatos” sobre os quais não temos ou tempo ou recurso para checar sua veracidade, mas que têm a finalidade de nos fazer acreditar em uma narrativa de interesse político ou econômico do emissor. Nesta nova era a tudo podemos ter acesso e estamos expostos ao acesso de todos. A toda mensagem recebida há que se responder, responder imediatamente, sempre opinar, mas consciente da bolha em que o tema está inserido sob pena de, se discordar, afrontar o pensamento lacrador e ser impiedosamente cancelado, bloqueado, eliminado. Se há, portanto, uma acusação de só falarmos dentro e para uma bolha, ela se justifica não tanto pela necessidade de “likes”, mas muito mais pelo receio de sermos acusados do que não somos. Os limites impostos pelas normas de convívio presencial, cara a cara, não existem na comunicação à distância, sem rosto, sem endereço, e, até mesmo, sem identidade.

Se a “grande rede” colocou em nossas telas o mundo todo e tudo do mundo, as redes sociais nos propiciaram um maravilhoso mundo novo onde tudo é mais rápido, mais fácil e mais barato.  Mas não há ponto sem contraponto. Por outro lado, estamos vivenciando uma degradação paulatina das liberdades (de expressão, de ir e vir, de educar os filhos etc.). Percebo em andamento um processo consequente de “acovardamento do cidadão perante o Estado” que tudo quer criminalizar, o que é temeroso, pois uma “sociedade amedrontada troca liberdade por segurança”, lembrando que segurança não é algo real, é tão-somente uma sensação.


A arbitrariedade e o autoritarismo se manifestam em todos os segmentos da sociedade (político, econômico, social e cultural) e em qualquer parte do espectro (à direita, à esquerda, ao centro, e ao muito-pelo-contrário). O “politicamente correto” evoluiu para um estado de transcendência, se tornou uma religião sem líder, sem ritos, sem templos, mas equipada por uma tropa de elite comprometida com a coerção total.


O STF, cuja função primordial, seria proteger a Constituição (independente de julgamentos pessoais de se é boa ou má), a afronta quase diariamente por decisões monocráticas de pseudos juízes (ou editores como definiu um deles) de tudo, ignorando o papel do legislativo e obstruindo legítimas ações do executivo.


Os correios e as companhias telefônicas jamais foram responsabilizados pelo conteúdo do que transitava por seus canais. Na ED, como tudo é gravado e passível de ser recuperado para qualquer fim, qualquer interesse, as empresas e plataformas tecnológicas passaram a ser responsabilizadas por tudo aquilo que é “postado” e armazenado em suas bases de dados. A “consequência inevitável” é que, para se protegerem das arbitrariedades do Estado (lembremos o que Alexandre de Morais exigiu do Facebook e Twitter) elas passaram a se antecipar e se auto-assumiram como censoras do mundo digital. A exemplo da Igreja na Idade Média, cada uma cria seu próprio “Index” de palavras e temas que não podem ser citados ou abordados e, caso o desavisado o faça, é imediatamente banido da plataforma.

Não bastando, o advento das “fake news” – a que vou atribuir a função de servir como aranha(1) -, motivou o surgimento de empresas e organismos não-governamentais, com a nobre tarefa de nos proteger de tão perniciosos conteúdos. São as chamadas “agências checadoras” que se propõem a verificar a veracidade do que circula na web. Tais checadoras são, na essência, agências censoras a serviço do interesse político ou econômica das entidades que as controlam. Exemplo maior no Brasil é a tal de LUPA ligada ao grupo Folha.


Entidades supranacionais, organismos internacionais e empresas multinacionais, “lacram” qualquer outro (pessoa, empresa, ou governo) que não adote “suas  verdades” por mais não-verdades que elas sejam, se colocando acima da autonomia/soberania das nações, numa busca alucinada pela pasteurização cultural e implantação de um poder único e uma ordem única global.

Fico por aqui. Na próxima semana finalizo esta investigação sobre a nossa nova identidade como cidadãos deste mundo em que a cada dia faz menos sentido dividi-lo em duas culturas, a ocidental e a oriental.

(1) Apontar uma aranha atrás de você é a técnica para desviar seu interesse daquilo que não querem que você tenha interesse em saber. Para entender como funciona, assista este vídeo do Lacombe com o médico Alessandro Loiola

23/10/2020

MUNDO NOVO, ADMIRÁVEL OU ABOMINÁVEL? - O RECEPTOR

Se todos somos emissores, e se nossas mensagens podem ser distribuídas para  todos, então, todos somos passíveis de sermos atingidos por mensagens sem que tenhamos escolhido as fontes emissoras! É plausível a pergunta inevitável: “e agora José?”.

Ao olhar para o antes das redes sociais, a disseminação da informação unidirecional, era exercida por um cartel de meios tradicionais formado pelas mídias impressa, radiofônica e televisiva, onde os detentores do poder (privado e estatal) pautavam a sociedade política, cultural, moral e eticamente, pois sempre em obediência a seus interesses umbilicais. Éramos meros receptores, nada mais que uma esponja absorvente, sujeitos passivos ao conteúdo de um número limitado de fontes e diversidade de opiniões, pois na maior das vezes, estavam em total sintonia de discurso. Isto não existe mais. Tais emissores perderam o controle. O cartel foi desmontado. Um CADE transcendental, onipresente na nuvem, deu um basta no oligopólio ao abrir o mercado da comunicação bidirecional (multicast) para a participação de todos, cidadãos, empresas, instituições de todas as áreas e instâncias, e governos. A opinião dos meios tradicionais não só não vale mais como ganhou o rótulo de tendenciosa e manipuladora, o que faz dos veículos tradicionais receberem a avaliação de serem as instituições menos confiáveis hoje no mundo.

A primeira consequência foi a adoção, pela grande mídia, do discurso político em substituição ao relato dos fatos. Ou mais adequadamente colocado, o fim da relevância da investigação antes de noticiar o que quer que seja (repórter investigativo é espécie ameaçada de extinção). A história sobre o fato, as motivações, os agentes, a descrição do fato em si, e as consequências, não importam, só conta quem conta e como conta. A expressão da vez é a “narrativa sobre o fato” e como “narrativa” é julgamento subjetivo, parcial e, na maioria das vezes, emocional. O extrato resultante é o da sociedade que deixa de ser democrática – respeito à opinião adversa, para se tornar simplesmente uma sociedade “canceladora” (eu discordo, logo te cancelo).

Amanda e Loiola

Um segundo aspecto é que passamos à condição de receptores involuntários de uma mixórdia de narrativas, cujo exemplo mais atual nos é dado pela COVID-19, onde ninguém sabe nada ou quase nada, mas todos se acham no direito e no dever de fazer “alguma coisa”. Nosso grandíssimo problema não é separar o joio do trigo, é reconhecer um e outro para poder separar uma coisa de outra. Para estabelecer uma “verdade”, mesmo sendo só a “minha verdade”, estamos entalados com “verdades” que se contrariam sobre um mesmo fato, uma mesma notícia, um mesmo problema. Recebo “estudos que comprovam” tanto o sim quanto o não sobre qualquer tema da vida!!! É patético ver uma Amanda Klein(1), pseudo-jornalista, no programa do Lacombe, na Rede TV. Ela “se acha” tanto dona da “verdade” a ponto de contestar, em postura arrogante, previsões de um estudioso de viroses, o médico Alessandro Loiola com uma exclamação em tom jocoso: “Diga doutor, o pseudo-jornalista senhor então tem uma bola de cristal!”.

Se nós, adultos, estamos com este colossal problema, que dizer de nossos filhos e netos que nem mesmo percebem o problema ainda? Dar celular ou não? Instalar (e configurar!) filtros de conteúdo ou não. Quantos minutos (ou horas?)  lazer digital deve-se permitir. Como lidar com o bulliyng digital? Quem está se comunicando com eles é um avatar, um robô, um outro ser-humano, e ser for um, de que sociopatia é possível que ele sofra?

O "cara" do Fique em casa.

A necessidade do “eu preciso postar”, me manifestar nas redes sociais, leva políticos ao exercício da leviandade, da pressa em tomar decisões intempestivas que irão afetar toda mais de 200 milhões de brasileiros. Eis os dois exemplos do que falo. Um ex-ministro da saúde do governo mandou que todos ficassem em casa e que só se dirigissem a hospitais depois de terem sintomas graves. Quantos terão morrido por essa insanidade? Um governador declara que vai obrigar toda a população do seu estado a se vacinar, lembrando que isto, sendo possível realizar, é jurisdição exclusiva do governo federal, e quando nem mesmo uma vacina existe e, se vier a existir, virá com um “erro de origem”, pois terá sido fabricada pela China, o país que criou o vírus e o distribuiu para o mundo!

O que estou apontando é o fato do poder de disseminação das redes sociais ter criado um senso geral de urgência. É uma corrida para ver quem ganha seus segundos de fama e nos envolve nas mais estapafúrdias e contraditórias afirmações. Personagens como Amanda e Gregório Duvivier (um pseudo-comediante) são estúpidos, mas recebem aplauso de uma cota de audiência, cujas cabeças entortam, ou reforçam o desvio, pois, por preguiçosas quanto à obtenção do saber, se deixam moldar mais facilmente. A História não terá lugar para eles.

Na próxima semana trato de nossa nova condição como agentes da comunicação. Nem emissor, nem receptor, agora somos todos Eceptores.

 

(1) Para assistir ao que relatei, basta assistir os primeiros minutos deste vídeo. https://www.youtube.com/watch?v=-asWTIBThR0

16/10/2020

MUNDO NOVO, ADMIRÁVEL OU ABOMINÁVEL? - O EMISSOR

Fui emocional e intelectualmente arrebatado pela internet no 2º semestre de 1995 e imediatamente me tornei um usuário intenso. Já em 96, criei uma lista de distribuição chamada INTERNET MARKETING(1) onde, por cerca de 5 anos, publiquei artigos refletindo sobre os diversos novos conceitos e práticas que a tecnologia trazia para a vida cotidiana. Em 97, como consequência dos artigos ali publicados, fui um dos articulistas da revista INTERNET BUSINESS(2) recém criada.  Meu primeiro artigo, com o título "A grande onda que vai passar"(3), foi publicado no número 1, onde fui sarcástico e provocativo com os empresários que resistiam à "onda passageira": "Não tenho discordado. Apenas os tenho alertado para que não sejam pegos distraídos à beira da praia. Por ser grande, ela vai passar levando tudo que encontrar pela frente". Relendo, constato que fui premonitório nesta e em outras passagens, mas, se fiquei aquém da realidade de hoje, 24 anos depois, fui além e onisciente ao destacar que "Neste meio eu sou a mensagem", um corolário à tese de que "o meio é a mensagem" feita por McLuhan em 1967.

Neste 2020, chegamos, na minha percepção, a uma outra consequente e conclusiva realidade, qual seja a de que se o emissor da mensagem é o detentor do poder (é o que McLuhan apontava), e se neste meio eu sou a mensagem, então "neste meio eu sou o poder". Mas qual a dimensão deste poder? Se eu o tenho, você também o tem? E que outros o têm?

Obviamente não enxerguei a dimensão que tal realidade alcançou a partir da prática do poder de se divulgar opiniões sobre qualquer coisa para um contingente de destinatários sem endereço – simplesmente “postando” - que pode ir de um até milhões deles, sem que o emissor tenha o mínimo de controle sobre tal consequência.  Além disto, cada receptor se transmuta em re-emissor e tem, portanto, um poder de disseminação que potencializa o tamanho da “audiência” final, se é que um final possa existir. A tecnologia que permite tal realidade está instalada em todo aparelho de celular nas mãos dos mais diferentes humanos, com os mais diversos interesses, com os mais esdrúxulos princípios e sentimentos, tudo com a proteção enganosa, frágil, do anonimato da "Grande Rede", sob a batuta orquestral da Inteligência Artificial (IA), entidade metafísica resultante do processamento de algoritmos elaborados com fins mais ou menos conhecidos, ou totalmente desconhecidos, rodando em bancos de dados distribuídos numa grande nebulosa vagando nas forças gravitacionais de um universo digital sem leis, sem controle, sem caráter. 

O emissor autônomo, subordinado exclusivamente aos seus impulsos, saudáveis ou doentios, pode elaborar qualquer coisa. Pode construir, com boas ou más intenções, falsos fatos; pode atribuir a outrem o que outrem não disse ou fez; pode editar/manipular fotos e vídeos falseando-os para contar uma narrativa imaginária, irreal; pode vomitar suas frustrações destruindo reputações; pode induzir crédulos a adotarem opiniões e atos inconsequentes ou mesmo criminosos com a garantia de que os receptores não terão o tempo e/ou as ferramentas para checar/questionar o conteúdo; pode cooptar, atrair, os mais suscetíveis, os mais frágeis (principalmente crianças e jovens adolescentes) para visões de mundo e de vida perigosas - para si mesmo ou para outrem - ou utópicas, sugestões que poderão levar alguns a atos extremos que vão do suicídio ao extermínio aleatório de pessoas como já visto em anos recentes em várias regiões do mundo. Basicamente tudo isso já era feito antes. Principalmente por governos ditatoriais. As diferenças agora são: pode ser feito por qualquer um; pode ser feito instantaneamente; pode atingir um número infinito de indivíduos; a informação falsa não pode ser contestada, nem desconstruída (o direito de resposta até existe, mas como chegar às mesmas pessoas?), e nem mesmo há tempo para evitar suas consequências; e é possível, mas é muito difícil, em grande parte dos casos, identificar e chegar ao autor.

A comunicação interpessoal de registro perene (escrita, impressa), até o final do século XX dependia de um meio físico (papel) e de uma logística de distribuição (correios), uma combinação que além de demandar um tempo longo para chegar ao destinatário, permitia que o emissor refletisse na elaboração da mensagem, a revisasse e, até mesmo, desistisse do seu envio. Este processo foi exterminado por uma comunicação digital imediata. Para nós, avós, em não sendo necessária para a vida profissional, a tecnologia digital é algo que temos que aprender a usar, pois faz parte de nossa vida cotidiana e a cada dia ganha mais relevância em nossos relacionamentos (damos bons dias como nunca antes, invocamos Deus para diversos desejos, fofocamos, distribuímos bobagens e, basicamente, reenviamos piadas às vezes de gosto duvidoso). Para nossos filhos é ferramenta básica não só de inserção nas comunidades profissionais, como para a a distribuição de mostruários, comunicação de feitos, entrega de serviços. E para nossos netos, a Era Digitrônica (ED) é a única forma de vida que conhecem (mal) de interação com o mundo, com o outro, mas que, por ser absolutamente nova e por ter uma estrutura anárquica, incontrolável, eles estão à deslumbrados com os "felipes netos" e outras celebridades da Rede, o que lhes dá uma visão ilusória de uma vida improvável de vir a ser realidade. Neste novo mundo digitrônico as regras principais para o emissor, são: tudo me é permitido, posso expor minha intimidade sob uma pretensa privacidade, sobre tudo posso opinar desde que minha opinião esteja de acordo com a bolha em que o tema está inserido, e, em contrapartida, a todos fora da bolha posso ofender/caluniar sob um duvidoso anonimato.

Nossos jovens adolescentes, entre eles meu neto de mal completados 15 anos, se gabam do número de seguidores de seus ditos e feitos postados em seus canais do Youtube. Minha neta de 10 anos dá dicas de roupa e maquiagem em seu Facebook. Nossos jovens pais expõem fotos de eventos familiares (uma autêntica “autofagia da privacidade”) e contam (e exageram) seus feitos diários sempre com sorrisos de falsa felicidade estampados em seus rostos higienizados e maquiados. Quase tudo é falso, quase tudo é para construir um outro que não somos. Quais os limites? Se tenho o direito de postar, devo postar? Passar de um emissor medíocre e restrito ao círculo familiar, de amizades e profissional para se tornar um emissor universal, este é o processo mais relevante em nossos dias, mas também é o mais fácil de ser aprendido.

Tentar ser um “bom receptor” é a tarefa que se apresenta para nós como sendo a mais difícil e a mais importante para a construção e manutenção de nossa integridade moral, ética, cultural e psicológica. É o que vou tratar na postagem da próxima semana.



(1) "Lista de distribuição" era um recurso dos programas de e-mail que funcionava como uma lista de assinantes que ficava sediada no servidor do provedor de acesso e que me permitia distribuir um artigo para os assinantes bastando fazer um envio para o emeio da lista e todos o receberiam.

(2) Acesse todos os artigos nesta página de meu blog pessoal: 

http://wikiconomia.blogspot.com/p/textos-sobre-marketing-administracao-em.html

A publicação foi descontinuada em 2001.

(3) Acesse o artigo nesta página de meu blog pessoal: 

http://www.sendme.com.br/EXTRATOS/InternetGrandeOndaQueVaiPassar1997-08-15.htm