sexta-feira, outubro 16, 2020

MUNDO NOVO, ADMIRÁVEL OU ABOMINÁVEL? - O EMISSOR

Fui emocional e intelectualmente arrebatado pela internet no 2º semestre de 1995 e imediatamente me tornei um usuário intenso. Já em 96, criei uma lista de distribuição chamada INTERNET MARKETING(1) onde, por cerca de 5 anos, publiquei artigos refletindo sobre os diversos novos conceitos e práticas que a tecnologia trazia para a vida cotidiana. Em 97, como consequência dos artigos ali publicados, fui um dos articulistas da revista INTERNET BUSINESS(2) recém criada.  Meu primeiro artigo, com o título "A grande onda que vai passar"(3), foi publicado no número 1, onde fui sarcástico e provocativo com os empresários que resistiam à "onda passageira": "Não tenho discordado. Apenas os tenho alertado para que não sejam pegos distraídos à beira da praia. Por ser grande, ela vai passar levando tudo que encontrar pela frente". Relendo, constato que fui premonitório nesta e em outras passagens, mas, se fiquei aquém da realidade de hoje, 24 anos depois, fui além e onisciente ao destacar que "Neste meio eu sou a mensagem", um corolário à tese de que "o meio é a mensagem" feita por McLuhan em 1967.

Neste 2020, chegamos, na minha percepção, a uma outra consequente e conclusiva realidade, qual seja a de que se o emissor da mensagem é o detentor do poder (é o que McLuhan apontava), e se neste meio eu sou a mensagem, então "neste meio eu sou o poder". Mas qual a dimensão deste poder? Se eu o tenho, você também o tem? E que outros o têm?

Obviamente não enxerguei a dimensão que tal realidade alcançou a partir da prática do poder de se divulgar opiniões sobre qualquer coisa para um contingente de destinatários sem endereço – simplesmente “postando” - que pode ir de um até milhões deles, sem que o emissor tenha o mínimo de controle sobre tal consequência.  Além disto, cada receptor se transmuta em re-emissor e tem, portanto, um poder de disseminação que potencializa o tamanho da “audiência” final, se é que um final possa existir. A tecnologia que permite tal realidade está instalada em todo aparelho de celular nas mãos dos mais diferentes humanos, com os mais diversos interesses, com os mais esdrúxulos princípios e sentimentos, tudo com a proteção enganosa, frágil, do anonimato da "Grande Rede", sob a batuta orquestral da Inteligência Artificial (IA), entidade metafísica resultante do processamento de algoritmos elaborados com fins mais ou menos conhecidos, ou totalmente desconhecidos, rodando em bancos de dados distribuídos numa grande nebulosa vagando nas forças gravitacionais de um universo digital sem leis, sem controle, sem caráter. 

O emissor autônomo, subordinado exclusivamente aos seus impulsos, saudáveis ou doentios, pode elaborar qualquer coisa. Pode construir, com boas ou más intenções, falsos fatos; pode atribuir a outrem o que outrem não disse ou fez; pode editar/manipular fotos e vídeos falseando-os para contar uma narrativa imaginária, irreal; pode vomitar suas frustrações destruindo reputações; pode induzir crédulos a adotarem opiniões e atos inconsequentes ou mesmo criminosos com a garantia de que os receptores não terão o tempo e/ou as ferramentas para checar/questionar o conteúdo; pode cooptar, atrair, os mais suscetíveis, os mais frágeis (principalmente crianças e jovens adolescentes) para visões de mundo e de vida perigosas - para si mesmo ou para outrem - ou utópicas, sugestões que poderão levar alguns a atos extremos que vão do suicídio ao extermínio aleatório de pessoas como já visto em anos recentes em várias regiões do mundo. Basicamente tudo isso já era feito antes. Principalmente por governos ditatoriais. As diferenças agora são: pode ser feito por qualquer um; pode ser feito instantaneamente; pode atingir um número infinito de indivíduos; a informação falsa não pode ser contestada, nem desconstruída (o direito de resposta até existe, mas como chegar às mesmas pessoas?), e nem mesmo há tempo para evitar suas consequências; e é possível, mas é muito difícil, em grande parte dos casos, identificar e chegar ao autor.

A comunicação interpessoal de registro perene (escrita, impressa), até o final do século XX dependia de um meio físico (papel) e de uma logística de distribuição (correios), uma combinação que além de demandar um tempo longo para chegar ao destinatário, permitia que o emissor refletisse na elaboração da mensagem, a revisasse e, até mesmo, desistisse do seu envio. Este processo foi exterminado por uma comunicação digital imediata. Para nós, avós, em não sendo necessária para a vida profissional, a tecnologia digital é algo que temos que aprender a usar, pois faz parte de nossa vida cotidiana e a cada dia ganha mais relevância em nossos relacionamentos (damos bons dias como nunca antes, invocamos Deus para diversos desejos, fofocamos, distribuímos bobagens e, basicamente, reenviamos piadas às vezes de gosto duvidoso). Para nossos filhos é ferramenta básica não só de inserção nas comunidades profissionais, como para a a distribuição de mostruários, comunicação de feitos, entrega de serviços. E para nossos netos, a Era Digitrônica (ED) é a única forma de vida que conhecem (mal) de interação com o mundo, com o outro, mas que, por ser absolutamente nova e por ter uma estrutura anárquica, incontrolável, eles estão à deslumbrados com os "felipes netos" e outras celebridades da Rede, o que lhes dá uma visão ilusória de uma vida improvável de vir a ser realidade. Neste novo mundo digitrônico as regras principais para o emissor, são: tudo me é permitido, posso expor minha intimidade sob uma pretensa privacidade, sobre tudo posso opinar desde que minha opinião esteja de acordo com a bolha em que o tema está inserido, e, em contrapartida, a todos fora da bolha posso ofender/caluniar sob um duvidoso anonimato.

Nossos jovens adolescentes, entre eles meu neto de mal completados 15 anos, se gabam do número de seguidores de seus ditos e feitos postados em seus canais do Youtube. Minha neta de 10 anos dá dicas de roupa e maquiagem em seu Facebook. Nossos jovens pais expõem fotos de eventos familiares (uma autêntica “autofagia da privacidade”) e contam (e exageram) seus feitos diários sempre com sorrisos de falsa felicidade estampados em seus rostos higienizados e maquiados. Quase tudo é falso, quase tudo é para construir um outro que não somos. Quais os limites? Se tenho o direito de postar, devo postar? Passar de um emissor medíocre e restrito ao círculo familiar, de amizades e profissional para se tornar um emissor universal, este é o processo mais relevante em nossos dias, mas também é o mais fácil de ser aprendido.

Tentar ser um “bom receptor” é a tarefa que se apresenta para nós como sendo a mais difícil e a mais importante para a construção e manutenção de nossa integridade moral, ética, cultural e psicológica. É o que vou tratar na postagem da próxima semana.



(1) "Lista de distribuição" era um recurso dos programas de e-mail que funcionava como uma lista de assinantes que ficava sediada no servidor do provedor de acesso e que me permitia distribuir um artigo para os assinantes bastando fazer um envio para o emeio da lista e todos o receberiam.

(2) Acesse todos os artigos nesta página de meu blog pessoal: 

http://wikiconomia.blogspot.com/p/textos-sobre-marketing-administracao-em.html

A publicação foi descontinuada em 2001.

(3) Acesse o artigo nesta página de meu blog pessoal: 

http://www.sendme.com.br/EXTRATOS/InternetGrandeOndaQueVaiPassar1997-08-15.htm 



















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