11/09/2020

MUNDO NOVO, ADMIRÁVEL OU ABOMINÁVEL? - INTRODUÇÃO


Aldous Huxley

Neste 2020, recordar, reler, citar ou referenciar George Orwell (1984) ou Aldous Huxley (Admirável Mundo Novo), tornou-se corriqueiro, quase obrigatório, argumento de apoio para a previsão de um futuro admirável ou abominável, a depender da utopia individual mais conveniente.


George Orwell

No cerne de nossas preocupações estão duas ficções que se completam para formar a realidade atual, ou quase. Uma delas é a previsão de Huxley, feita em 1932, que imagina um futuro - ainda hoje longínquo, pois o situa por volta de 2500 -, onde a sociedade, ou mais acuradamente, um poder tirânico estabelecido, desconstroi a família e seus valores morais em proveito da exaltação da luxúria e do prazer hedonista em primeira e última instância. Orwell, em 1947, já projetando o que os avanços tecnológicos produzidos pelas demandas da guerra iriam trazer para a humanidade, de um lado aprimora a visão de Huxley adicionando a existência de um "grande irmão" que tudo vê e, por ver, julga nossos atos e intenções, e nos pune a seu único critério, e de outro lado reduz em 500 anos o momento em que o futuro se torna presente.

Huxley, provavelmente ancorado nas consequências da crise de 1929, tece sua história, na minha interpretação, a partir de um forte sentimento de receio, de apreensão, e um pessimismo sarcástico (o "admirável" nada tem de admirável) para dar um toque de alento e não assustar seus possíveis leitores (não se preocupe, vai ser só daqui a 500 anos!). Já Orwell elabora sua tese a partir de uma visão prática, baseada no raciocínio de que, se ao 1 sempre segue o 2, então, inexoravelmente, se existe uma tecnologia que pode vigiar, seremos vigiados

Ficções não precisam ter fidelidade à história, à ciência, à experiência, a fatos, a nada. Ficção é... ficção, imaginação, desejo, sonho, por mais estapafúrdia possa ser. Se Orwell errou na forma - não existe hoje um grande controlador, mas gadgets eletrônicos aos quais entregamos, prazerosa e gratuitamente, desde  nossos cliques mais inocentes até nossos mais recônditos segredos e questionáveis preferências -, e se Huxley errou na data, ambos acertaram no conteúdo: o discurso de destruição dos valores conservadores e demonização dos princípios liberais. 


Em todo o mundo ocidental os movimentos de pressão são por criar mais e mais cerceamento às nossas liberdades, tendência que sofreu um gigantesco empurrão dado pela pandemia da COVID-19, liderada pela China e através das ações da OMS, sua agente comunista infiltrada na ONU. No Brasil ainda temos a particular ação do STF com seu "inquérito das fake news", ou do "fim do mundo", e do Congresso com sua CPI das  "fake news" que ninguém tem a menor ideia de como combater pois não se combate aquilo que não se vê, ou não se define. Tornou-se, consequentemente, a CPI "do nada", para efeito de "coisa nenhuma".

Se estamos mergulhados neste lado insano da realidade digitrônica e nos aproximando da sociedade do Grande Irmão onipresente, onipotente e onisciente graças aos algoritmos rodando em imensos bancos de dados que avaliam e projetam nosso comportamento e desejos, e se isto é fato, estamos, também, sendo agraciados com uma tecnologia que facilita a nossa vida em muitos e múltiplos aspectos: avalie sua comunicação interpessoal e veja como ela mudou, como ela nos aproximou ao longo desta absurda e interminável quarentena; como ela nos empoderou no enfrentamento do domínio cultural exercido pela tradicional e grande mídia, em especial pelas mídias dos grupos Globo e Folha; considere o poder de obtenção de informação que passamos a ter antes de termos que tomar qualquer decisão; e as tantas e tantas viagens que podemos fazer pelo mundo sentados em nosso sofá acessando o conteúdo gratuito do Youtube, ou assistindo filmes, documentários  e séries da Netflix a 24,90.

Quando, por alguns reais e 99, centavos temos acesso à rede mundial, ao mesmo tempo permitimos que anônimas pessoas, físicas e jurídicas, bisbilhotem absolutamente tudo sobre o que pensamos, sentimos, escrevemos, compramos, de quem, quando, onde e por quê, sem que nos informem quando o fazem e com quais finalidades.

Desde os primórdios a estrutura do que conhecemos como "a civilização" teve como alicerce e centro os que detinham o poder, ou seja, aqueles que assumiam o custo de oprimir, amedrontar, controlar (governar e democracia são os termos mais hipocritamente palatáveis), enquanto os demais sempre  adequadamente instados à submissão, ao medo, à covardia, sem voz, sem vontades, sem desejos, optantes involuntários a darem-se por satisfeitos em estar e permanecer vivos. Isto já não é mais tão assim.


A história da civilização, portanto, é a trajetória de dois grupos de humanos antagônicos, mas interdependentes, que vem desde um primeiro estágio onde ambos desconheciam o que se passava dentro da cabeça do outro, até os nossos dias quando contínuos recursos de comunicação encurtam este distanciamento ao oferecerem, cada dia mais, e mais rápido, acesso ao conhecimento das intenções e estratégias de cada um. Parte deles foram: o cavalo, a roda, a navegação, a prensa de Gutemberg , a máquina a vapor, a mídia impressa, a eletricidade e a consequente luz elétrica, a telefonia fixa, o rádio, o motor a combustão, o gravador de áudio,  a eletrônicacomputaçãoa televisão, o vídeo tape,  a internet, a telefonia celular, e, last but not least, as redes sociais. Neste percurso, o poder foi suavemente passando de algoz a vítima. Até recentemente, enquanto aumentavam os recursos do cidadão para questionar os detentores de todos os poderes, estatais ou privados, pois eram eles que ditavam (produziam e distribuiam) o conteúdo de acordo com suas necessidades de manter o controle, o fluxo de informação que, por séculos, só corria em uma direção, ganhou uma via em sentido inverso graças a uma tecnologia que a cada nova descoberta incrementa o fluxo e a velocidade do tráfego e graças a Tim Berners Lee, criador da World Wide Web, a grande teia mundial, empoderando a população - antes passiva e subjugada - com uma ferramenta capaz de confrontar as oligarquias e por em dúvida a capacidade de o modelo atual de democracia dar conta (que, por 2 séculos, serviu de biombo, ou verniz de legalidade, para as arbitrariedades, e até mesmo atrocidades, para garantir a perpetuação delas no poder), pois até onde se percebe ele se mostra impotente e paralisado, incapaz de gerir o caos provocado por bilhões de vozes dissonantes cujo resultado é a união no radicalismo superficial na tese, onde podem concordar minimamente, e raivoso na ação, onde podem divergir, agredir e se destruírem mutuamente.

Refletir sobre o mundo de hoje e projetar um amanhã possível e que já se avizinha, é o que pretendo fazer no intuito de me entender neles e dar alguma contribuição para você fazer o mesmo.

Para complementar:

Fonte: XP Investimentos: "Hoje, para cada criança jogando futebol, basquete, baseball e futebol americano no mundo, há 6 outras jogando videogames."  


"O mimo crescente nas universidades", uma crônica de Rodrigo Constantino em . Vídeo de 1h:45. Quem tem filhos nas universidades deve assistir desde o começo, e quem tem filhos menores pode pular para 1h:00.

RESENHAS DE 1984 

Feita por Ayone Simões, em 2016:.

- Feita por Paulo H. S. Pirasol, em 2020.   

RESENHAS DE ADMIRÁVEL MUNDO NOVO

- Longa, feita por Ignácio Ramonet, atualizada em 2019. 

- Mais simples, feita por Layara Baltokoski,  de 2015.  

 

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