27/10/2014

THE DAY AFTER

Neste dia seguinte em que parcela de nós sente o coração apertado, com um sentimento de derrota que não quer ir embora, me vem uma questão: se nós perdemos, "quem ganhamos"?

Para tentar encontrar  algumas respostas, começo lembrando que democracia não é uma disputa olímpica, com um vencedor e um bando de perdedores. Democracia é convivência entre opostos e, como consequência, é alternância de poder, nada a ver, portanto, com perder ou ganhar. Não ter esta percepção é confessar uma incapacidade para o convívio num ambiente em que é preciso administrar as diferenças. É admitir uma queda para o autoritarismo, o contraponto à democracia.


Como segundo ponto, não ser o escolhido numa eleição, impõe a estes - candidato e partido - a responsabilidade obrigatória do papel de oposição, fundamental em qualquer democracia saudável. Aproveitando este argumento, tenho a opinião de que o PSDB não obteve maioria neste pleito presidencial, porque abdicou da obrigação (insisto, é mais que um direito) de fazer oposição. Não vou mergulhar neste ponto, mas é inegável que não só o partido quanto a seu papel representativo, quanto seus principais líderes, ficaram calados nestes últimos 12 anos.

Um terceiro ponto vou extrair de uma mensagem falsa e burramente atribuída a um jornalista respeitado, onde o covarde e anônimo autor lista uma sequência de atitudes idiotas que ele nos aconselha assumir porque o PT vai estar no governo pelos próximos 4 anos. Cito apenas uma para dar ideia do cerne das propostas: "Está abolida toda e qualquer 'gorjeta' ou 'caixinha' para carregadores, empacotadores, frentistas, e outros 'excluídos sociais. Como a vida deles melhorou MUITO com este governo de esquerda, não precisam mais de esmolas". Nada mais revelador de uma postura retrógrada, revanchista, preconceituosa, egoísta e anti-democrática. O sujeito admite que "a vida deles melhorou muito", mas se rebela por isto ter acontecido. Não é nem que o autor tenha visão curta, é cegueira completa!

Um quarto ponto e que vem na esteira do anterior, é o discurso de que o povo não sabe votar. O outro lado da moeda é, evidentemente, que só a elite sabe. A minha opinião é que, neste sentido que a elite quer dar, ninguém sabe votar. Eu explico. A elite vota olhando para seu umbigo porque vota, em tese, no futuro, num país melhor para seus filhos e netos, com mais educação, mais saúde, melhor qualidade de vida. E estão absolutamente certos, mas absolutamente egoístas. É um egoísmo mais para os seus do que para si mesmos, pois não precisam de mais nada. Já são bem sucedidos intelectualmente, profissionalmente, financeiramente etc. Eles podem olhar para o futuro porque não enfrentam fila do SUS, nem falta d'água, nem precisam pedir bolsa família. Neste sentido, realmente "o povo não sabe votar" porque o povo tem que ser, também, absolutamente egoísta e se concentrar em votar nas promessas que atenderão suas necessidades imediatas, principalmente as relativas a saúde, alimentação e emprego. E, neste sentido, o povo vota certo, enquanto a elite vota totalmente errado porque vota contra os interesses imediatos do povo.

Faço um parênteses para tratar do discurso de que precisamos investir em educação. Sem dúvida. Mas é preciso responder primeiro porque há tanta evasão escolar. O "povo" quer educação, mas só bem depois de emprego que vem bem depois de saúde que vem depois de alimento. Somos ainda primitivos, dependemos do mais básico, alimento. Alimentados, queremos aumentar nossa sobrevivência. Sobrevividos, queremos participar de nosso grupo. Participantes, queremos nos destacar entre os pares. É simples assim.

Com as considerações até aqui em mente, chegamos ao ponto que mais incomoda a todos nós da elite: por que, apesar de todo o processo do mensalão, das condenações de líderes do PT, das manchetes há meses nos jornais sobre os roubos na Petrobrás, sobre Abreu Lima, apesar da acusação feita pelo doleiro Alberto Youssef, publicada pela Veja na véspera do pleito, de que Lula e Dilma sempre estiveram à frente de tudo (e tem gente que ainda duvida de que um corpo pode andar sem a cabeça!!!), apesar de tudo isso, o "povo" votou no PT? A resposta é simples: porque o "povo" sabe votar! O "povo" não é departamento de polícia, nem tribunal de justiça, nem arauto da moralidade. O "povo" não quer justiça, o "povo" quer presente e não futuro, o "povo" quer comida, saúde e vida boa. Depois disso conquistado, aí o "povo" vira elite e passa a votar de outro jeito.

O "day after" é simples assim: "o povo ganhamos".


Um comentário:

  1. Dias depois de publicado este post, comecei a ler a autobiografia de Nelson Mandela. Logo nas primeiras páginas ele fala sobre como era visto o ensino na pequena aldeia em que vivia quando criança. Reproduzo aqui apenas para reforçar os argumentos que apresentei no meu texto.

    "Uma ou outra pessoa do povoado sabia ler e escrever, quando muito, e a ideia de ensino ainda era estranha a muita gente."

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