28/07/2017

EPICURO, O DEFENSOR DA HUMANIDADE

Eis que sou presenteado pelo acaso com a oportunidade de conhecer Epicuro, filósofo grego que viveu entre 341-270 a.C. e colocou sua vida em defesa do sentimento de humanidade de todos os homens e mulheres. O livro "A doutrina de Epicuro" é um trabalho de Benjamim Farrington publicado originalmente em 1967, portanto, a 50 anos atrás.

Eis o que selecionei de mais significativo.

[Entre aspas e italizado, mas sem referência a autor, são sempre falas/escritos de Epicuro. Todos os grifos são meus.]

Epicuro
Epicuro, de Atenas, a mais famosa das cidades-estado gregas, fundador de um movimento que se difundiu por todo o mundo mediterrâneo e durou 700 anos, cujo objetivo era fazer a humanidade voltar à felicidade depois da devastação das guerras.

O princípio fundamental de seu pensamento era o de que uma sociedade feliz deve basear-se na "amizade", um acordo mútuo para não infligir nem sofrer injustiças, e não na "justiça", isto é, numa constituição ideada por um legislador e imposta por sanções.

"Devemos meditar sobre as coisas que fazem a nossa felicidade."

  
"Vã é a palavra de um filósofo que não cura nenhum sofrimento do homem."

Um epicurista deveria ser meigo e afável.

"O motivo pelo qual Epicuro se mantinha afastado da vida pública", diz seu biógrafo, "era seu excepcional interesse pela igualdade."

Seus adeptos eram proibidos de participar da vida pública.

Para Epicuro, nenhuma legislação penal, se pudesse ser aplicada, forçá-lo-ia a aceitar a cosmologia de Platão. (...) À moderna religião dos deuses estelares [de Platão], opôs o que chamou de "a ideia comum de Deus gravada na mente de todos". (...) a autoridade dominadora do legislador foi abandonada em favor do principio do consentimento voluntário.

Epicuro estava basicamente interessado em defender a autonomia da vontade individual. (...) Embora fosse inimigo implacável do que chamava de "o mito" (nome pelo qual se referia à doutrina de que os deuses controlam todos os fenômenos da natureza), afirmava que "seria melhor conformar-se com o mito sobre os deuses do que ser um escravo do fatalismo dos filósofos naturais". (...) A sua concepção do átomo levava em conta um mundo de natureza animada, diferençado daquele por ser, em vários graus, o teatro da vontade.

Foi em Cólofon, por volta de 312 a.C. que nasceu o movimento epicurista. (...) Seu sistema era uma resposta prática ao problema que lhe era imposto por todas as experiências da sua vida, a saber: descobrir "de que modo os homens poderiam defender-se dos homens".

"Devemos nos libertar da prisão dos negócios e da política. (...) Alguns desejos são naturais e necessários, outros, naturais, porém desnecessários, alguns não são nem naturais nem necessários, mas apenas devidos à imaginação ociosa."

O ponto fundamental da ética epicurista é a interiorização da virtude pela exaltação do papel do sentimento sobre a razão.

"Quando afirmamos que o prazer é a meta (...) o que temos em vista é o ser livre da dor no corpo e da angústia na mente. A isso damos o nome de vida agradável, e não é obtida pelo beber e festejar contínuos, pela satisfação dos nossos apetites com rapazes e mulheres, ou pelos banquetes dos ricos, mas pelo raciocínio sóbrio, pela procura paciente dos motivos para escolha e recusa e pela nossa libertação das falsas opiniões que mais contribuem para prejudicar a nossa paz de espírito."

Nos círculos governamentais, o direito do estado de ditar as crenças dos cidadãos era a norma aceita. (...) Dentro do movimento epicurista, a diferença entre estado e religião já era um fato consumado.

"A morte, o mais aterrador dos males, não é nada para nós; enquanto vivemos a morte não existe, quando vem a morte, nós não existimos."

"Os seres humanos não devem ser coagidos, mas persuadidos."
  
Em sua literatura epistolar endereçada às suas comunidades espalhadas no Oriente, Epicuro surge como o precursor de São Paulo.


Cícero
Cícero (106-43 a.C.): "Pelo uso das nossas próprias mãos criamos dentro do reino da Natureza uma Segunda Natureza para nós mesmos."

Ensina o pontífice Cevola a Cícero: "É conveniente que o povo seja iludido em questões de religião."

Diz Cícero: "A constante necessidade que tem o povo do conselho e da autoridade da aristocracia mantém o estado coeso."

Faustel de Coulange, em sua obra La Cite Antique, diz: "Na cidade antiga, o estado e a religião eram tão completamente unos que era impossível não só imaginar um conflito entre eles como também distinguir um do outro."

E nas palavras de Estrabão (64 a.C. - 24 d.C.), o geógrafo: [os governantes] "precisavam controlar o povo pelos medos supersticiosos e estes não podem ser manifestados sem mitos e portentos."

Crítias, brilhante escritor e político ativo, em 403 a.C., coloca o seguinte discurso no orador de uma de suas peças: "Houve uma época em que a vida de um homem era desregrada, selvagem e estava à mercê da força. Nenhuma recompensa vinha do bem e nenhum castigo, do mal. Creio que foi então que os homens imaginaram leis para castigar o pecador, de modo que a justiça pudesse exercer igual domínio sobre todos e frustrar a violência. Assim, o pecador era castigado. Mas posteriormente observou-se que as leis só atingiam a violência manifesta, enquanto o crime oculto escapava. Foi então que algum homem mais inteligente do que seus pares inventou o medo dos deuses, para que os homens gemessem as conseqüências até mesmo dos seus feitos, palavras e pensamentos secretos. Nasceu a religião.

Platão
Em ensinamento de Epinomis, o décimo terceiro livro das Leis, de Platão: "os homens, que são feitos de barro, devem aprender com as estrela, que são feitas de fogo. As estrelas são a encarnação da alma.

A descrição de Atenas por Plutarco (46-120 d.C): "Aos nobres estavam afeitos o controle da religião, o suprimento das magistraturas, a exposição da lei e a interpretação da vontade do céu."

Políbio (200-118 a.C.): "As massas em todos os estados são instáveis, cheias de desejos licenciosos, ira irracional e paixão violenta. O melhor que se pode fazer é refreá-las pelo medo do invisível e outras imposturas. Não foi gratuitamente, mas com intenção deliberada, que os homens de outrora introduziram nas massas idéias sobre os deuses e opiniões sobre a vida futura."

Diz Políbio: "Não foi sem motivo, mas deliberadamente, que os homens de outrora introduziram nas massas noções sobre os deuses e opiniões sobre a vida futura."
  
Tito Lívio (59 a.C. - 17 d.C.): "A melhor maneira de controlar um povo ignorante e simples é enchê-lo de medo dos deuses."

Aristóteles
Enquanto Platão salientava a realidade do universal e permitia ao particular apenas uma existência indistinta e derivativa, Aristóteles foi o primeiro a ver a necessidade de considerar a realidade como individual, e o indivíduo como o real.


Aristóteles concluiu que a noção de um bem universal é uma ilusão. Devemos perguntar "Bom para quem, para que finalidade e quando?". Para ele nenhum legislador pode promulgar uma regra universalmente válida. [E concluiu:] o que é alimento para um homem, para outro é veneno.

Para Aristóteles a função do estado não é esmagar o indivíduo, mas proporcionar-lhe o ambiente em que ele possa atingir o seu potencial mais elevado.

Aristóteles, como Platão, aprovava os deuses antropomórficos como "um mito criado para garantir a obediência da multidão e uma atenção adequada às leis".
  
O ensino filosófico de que os sentimentos são maus em si próprios, fazem parte da teoria política de que a sociedade justa só pode existir se a minoria monopoliza o poder e defende esse monopólio patrocinando ou tolerando a crença em deuses caprichosos e irados (...). Epicuro atacou todo este conjunto de ideias.

A Igreja Cristã, no poder, revelou-se um grupo de perseguição, eliminando a liberdade de pensamento e impondo, pela força, se necessário, a uniformidade de crença. 


PREDECESSORES, CONTEMPORÂNEOS E POSTERIORES A EPICURO

Sólon (640-558 a.C.)
Pitágoras (570-495 a.C.)
Clístenes (565-492 a.C.)
Sócrates (469-399 a.C.)
Crítias (460-403 a.C.)
Platão (428-348 a.C.)
Aristóteles (384-322 a.C.)
Epicuro (341-270 a./C.),
Políbio (200-118 a.C.)
Cícero (106-43 a.C.)
Estrabão (64 a.C. - 24 d.C.)
Tito Lívio (59 a.C. - 17 d.C.)
Plutarco (46-120 d.C)
Alexandre de Abonútico (105-170 d.C.)


A Editora Unesp publicou "Carta sobre a Felicidade", escrita por Epicuro para Meneceu, um de seus discípulos. Selecionei algumas passagens, mas antes, lembro que Epicuro propaga que seu objetivo é ajudar a tornar feliz o homem que pratica uma decidida exortação ao exercício da filosofia.

"Pratica e cultiva então aqueles ensinamentos que sempre te transmiti, na certeza de que eles constituem os elementos fundamentais para uma vida feliz."

"Os juízos do povo a respeito dos deuses não se baseiam em noções inatas, mas em opiniões falsas."

"Acostume-se à ideia de que a morte para nós não é nada, visto que todo bem e todo mal residem nas sensações, e a morte é justamente a privação das sensações."

"Não há nada de terrível em deixar de viver."

"Quando a morte está presente, nós é que não estamos."

"O conhecimento seguro dos desejos leva a direcionar toda escolha e toda recusa para a saúde do corpo e para a serenidade do espírito, visto que esta é a finalidade da vida feliz: em razão desse fim praticamos todas as nossas ações, para nos afastarmos da dor e do medo."

"De fato, só sentimos necessidade do prazer quando sofremos pela sua ausência; ao contrário, quando não sofremos, essa necessidade não se faz sentir."

[Para Epicuro] "o prazer é nosso bem primeiro e inato."


"Os alimentos mais simples proporcionam o mesmo prazer que as iguarias mais requintadas, desde que se remova a dor provocada pela falta."

"Quando então dizemos que o fim último é o prazer, não nos referimos aos prazeres (...) que consistem no gozo dos sentidos (...), mas ao prazer que é ausência de sofrimentos físicos e de perturbações da alma."

"De todas essas coisas, a prudência é o princípio e o supremo bem (...); é dela que originaram todas as demais virtudes."




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