18/10/2017

SERES EM PEDAÇOS.

"Consequências da fragmentação: precipita a extinção e o declínio da população; a fragmentação causa mudanças no balanço competitivo entre as espécies, exacerbando as ameaças à sua diversidade." 
Coletado na web, sem autoria.

Estamos nos tornando seres despedaçados pós fragmentação das coisas no mundo da modernidade líquida. Nem todos já se sentem assim. Uns percebem que não são mais sólidos em suas certezas como até em um passado recente e buscam âncoras de resistência; outros já se vêem em pedaços que não se juntam e se perguntam "até quando?". Outros, simplesmente negam tal possibilidade de desmanche existencial.

Mas a fragmentação é ubíqua. Onipresente e onipotente. Só não é onisciente pois a informação é superficial, incompleta e desconexa. "La pièce de résistance" é negar o contraditório. Só queremos ouvir o que nos conforta em nossas angústias. O trabalho é temporário por tempo indeterminado. O amor é fluido como as águas do rio que rumam a outros leitos. Tudo o que era sólido derreteu sob o calor das tecnologias disruptivas. Onde foram parar nossas certezas? Não sabemos mais e não temos tempo para lidar com nossos filhos. Educá-los foi transferido para a exclusividade de escolas e professores presos aos métodos do século XIX porque não dão conta de entender seus papéis no século XXI. Os eventos passam como ventos em nossas vidas, rápidos, fortes e caóticos, enquanto nossa capacidade de adaptação/adequação/assimilação é desesperadoramente lenta. Nossas escolhas são fluídas, frágeis, pois nem mesmo temos tempo e discernimento para enxergar e avaliar as opções?

A verdade não tem qualquer relevância. Vale a versão midiática. A que atende aos interesses super-imediatos. O fato é ignorado, apenas a interpretação oficial deve ser considerada. E vale enquanto um novo fato, um novo interesse sem mesmo ter conexão com o anterior, não há continuidade, apenas sobreposição. A enxurrada de tuítes, zaps, posts, curtidas e notícias do último minuto, anexadas a charges, fotos ou vídeos, se fundem numa massa grotesca, confusa e disforme, transferida para a lixeira no tempo de uma viagem de metrô, de uma espera na ante-sala do dentista, porque o espaço de armazenamento se esgotou.

Estamos em pedaços. Não somos mais inteiros. Como maridos, devemos ser mães. Como mães, devemos ser provedoras. Como profissionais nos dizem que temos que ser multifuncionais. Esqueça a competência. A autoridade do conhecimento não é mais necessária pois o Google é nosso Papai-Sabe-Tudo deste nosso século. Tudo o que querem de nossos jovens é a energia de fazer que neles parece infinita. O trabalho é pontual. Somos parte de uma pequena parte. O resultado final quase nunca nos é dado saber. Pois não importa a qualidade do resultado. $$ó o re$ultado.   


A privacidade protegida nas constituições das nações mundo afora, é um conceito perdido em discursos vazios. Somos bisbilhotados em nossos comportamentos cotidianos mais comezinhos. A nuvem agora armazena tudo sobre mim. Tem as fotos que tirei com meu celular; tem imagens minhas captadas e gravadas por câmeras espalhadas por ruas, salas de espera, halls de bancos; tem toda a história de meus relacionamentos contada pelas milhares e milhares de mensagens trocadas pelos tantos aplicativos que tenho instalado; tem o rastreamento de todos os links que visitei em todas as minhas navegações, desde simples consultas na wikipédia até meus sites pornográficos preferidos, passando, obviamente, por todos os meus desejos de consumo satisfeitos ou apenas manifestos. Não existo mais como ser-humano. Meu ser, eu como indivíduo, sou construído a partir de uma pergunta (query) construída com parâmetros para atender um objetivo específico, aplicada sobre um banco de dados ao qual não tenho acesso e muito menos controle sobre o conteúdo. Neste contexto, deixei de ser uno, me tornaram um infinito de seres virtuais.

Nossa fragmentação nos deixou com um vazio. Nosso sentimento de pertencimento, a cola de nossa solidez perdida, estragou, perdeu a validade e a eficácia. Já vivemos o vazio pós sermos empurrados no precipício do mundo globalizado. Estranhamos o outro, nos defendemos do outro, agredimos o outro, porque  não temos nada que nos sobreponha como valor comum. Estamos tão fragmentados que não nos reconhecemos mais nem mesmo em nossos núcleos familiares. A intolerância se instalou nas casas onde cada um é solitário com seu computador ou smartphone pessoal. Nossa comunicação deixou até mesmo de ser restrita a 140 caracteres. Agora ela se resume a 👍,👎,😉 ou 😖.

Não nos vemos mais como uma só humanidade. Só a minha humanidade é real. A minha opinião é a única e universal verdade. Só a minha existência importa. A solidariedade deixa de ser uma atitude moral para virar um conceito utópico, distante, inalcançável, irreal. Desnecessário. A moral deixa de ser um impositivo para o sentimento de felicidade e para a qualidade das relações humanas.

Se toda tendência provoca uma tendência contrária, quanto ainda falta para que esta ganhe tal vulto que nos confronte e nos induza a refletir, questionar, reavaliar e optar? O que haverá num futuro momento de equilíbrio de tendências contrárias?  Abandonamos a era da modernidade sólida substituindo-a por uma pós-modernidade líquida que nos receita Rivotril ou Lexotan seguido de sessões em um divã no consultório do psiquiatra (não mais que Viagras para levantar o ânimo e provocar um gozo em nossa existência, agora, virtualmente vã). 

Se vamos reagir a esse destino, que destino teremos por opção? Um futuro de sólidas convicções flexíveis?





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