12/03/2020

PANDEMÔNIO

Pandemia, pan-neurose. O mundo está bolado, dirá meu neto. Um mundo, que nunca teve pé nem cabeça, está virando de ponta-cabeça, digo eu. Tal movimento de inversão mal começou. Muito há por vir nas próximas horas, dias, semanas e meses. 

Ninguém sabe é nada. Nos chegam declarações, afirmações, suposições, das mais altas autoridades nos dando conta de diagnósticos opostos, incertos, imprecisos, inócuos

Proibem-se viagens, aglomerações, torneios, aulas, beijos e abraços, como se fosse tão simples, tão normal, tão óbvio. Nunca mais o padre dirá "pode beijar a noiva". Quem sabe dirá "podem se acotovelar"!? Transporte público, nem pensar. Compre seu carro - para alegria da indústria automobilística (alguém tem que sair ganhando além dos fabricantes de máscaras e álcool gel). A realidade dura e crua é que ninguém sabe como este vírus se comporta. Como se dissemina? Qual o seu ciclo de vida? Que temperaturas suporta? Uma vez infectado e curado, me torno imune? Todos os governos estão como cegos, à noite, em meio de uma floresta. Caos total.

Muito vai mudar. Quase tudo. A começar pela circulação de papel moeda que é, talvez, o principal disseminador de vírus que existe (para nossas autoridades econômicas e sanitárias ainda não caiu esta ficha).  O lado "bom", é que provavelmente esta realidade será o empurrãozinho que faltava para o seu fim como instrumento monetário. O pequeno lojista, para quem até hoje receber à vista em espécie era a preferência, passará a dar desconto para quem pagar no cartão, de débito ou crédito, não importará, tudo menos dinheiro! Vade retro, Satanás!!!

Não vamos mais ao cinema. Não vamos mais visitar a vovó, ou a filha, ou a amada, ou o amigo, que mora à distância de um vôo. Viajar? Nem pensar! Toda a indústria e serviços de viagens, hospedagem e alimentação estão sendo arrasados!!!O que será de Hollywood? De Bollywood? Dos teatros e artistas? O que será do meu Mengão jogando em estádios vazios? Enquanto não vier uma vacina e um tratamento eficaz, como você pensa que a coisa toda acontecerá? Você tem ideia de se e quando virão tais medicamentos?

As bolsas despencam. E despencam. E continuam a despencar. Comprar na baixa? E quem há de saber em quantos mil pontos o fim do abismo está? Quem comprou ontem como está se sentindo hoje (12/3/20) com a queda de 14%? De qualquer forma capitalistas capitalizados estão babando na gravata à espera do momento de dar o bote e abocanhar a preço de banana em fim-de-feira altas percentagens de ações de empresas, sabe-se lá quais sejam?, que ainda podem gerar lucro. A certeza é que controles acionários mudarão de mãos como mudam de mãos cartas de baralho. Quem produz petróleo a 9 dólares está dando as cartas, e proposital e intencionalmente, quer quebrar quem produz a mais de 30 (o Brasil e seu lula-pré-sal?).

O comércio eletrônico terá um grande impulso, pois ninguém quer mais saber de sair de casa para nada, muito menos ir a lojas e supermercados comprar o que quer que seja. Aos carteiros, entregadores de encomendas, exigir-se-á que se apresentem com luvas e máscara. Antes de pegar na encomenda, uma borrifada de algum produto da Procter & Gamble criado especialmente para desinfetar pacotes entregues pelo correio. Os marqueteiros de plantão tentarão descobrir "oportunidades" na crise como insistem alguns em repetir, repetir, repetir. Será? Ou crise é apenas uma phoda em 99% em proveito de 1%?

Se ninguém compra, ninguém vende. O ciclo vicioso se estabelece. Derrocada geral. Falências em toda esquina. Todas as relações internacionais serão alteradas. O poder mundial mudando de protagonistas. O que antes valia, não valerá mais. O que antes era ouro, será pó. E o inverso emergirá. O peso de cada nação no cenário mundial será outro. Nenhum país sairá ileso, nem minimamente afetado. A porrada será um gancho de direita na ponta do queixo. Nocaute. Game is over!

Pandemônio! Mas quem é o demônio? Para quem leu meus textos publicados em 2019, sabe que cunhei o termo "era digitrônica" numa tentativa de rotular, sintetizar, as mudanças que estamos vivendo, principalmente, nestes últimos 10 anos. Pandemias não são novidade na humanidade. O que é novo, então? A velocidade, a universalidade da disseminação da informação sobre um fato e as infinitas versões sobre ele distribuídas pelas redes sociais. Voltemos 50 anos e imaginemos o mesmo vírus, na mesma China, na mesma Wuhan. Sem a digitrônica o vírus mataria algumas pessoas, tal como o Aedes e similares, por exemplo. As autoridades tomariam as medidas de praxe, semanas depois algum chinês infectado iria para a Itália, transmitiria para um italiano desavisado, e um mês depois diversos velhinhos teriam morrido, exceto um que não morreu e veio visitar a neta no Brasil e o resto seria história de mais uma pandemia mundial como tantas outras.

As pessoas não se importam de morrer. Elas estão em pânico pela hipótese remota de virem a falecer por causa do Covid-19!!! Pelo menos é o que deduzo vendo a reação das pessoas à minha volta. Não se importam de morrer de acidente de automóvel (a cada 1 hora 5 pessoas morrem em acidente de trânsito, ou seja, 60 pessoas por dia no Brasil). Em 2019, foram 1109 mortes por gripe!!! Em 2018 foram 157 homicídios por dia neste nosso país varonil!!! Aqui, em média, 15 pessoas morrem por desnutrição por dia! Ah! Mas isso não me atinge!!! Não vale.

Se você está pensando que estou aqui anunciando o apocalipse, ou, como acreditam algumas pessoas, que o fim do mundo está próximo como previsto na Bíblia (é o que dizem, não sei, não li), não é culpa sua, e sim, minha, proposital. Minha intenção é provocar a reflexão sobre o que é razoável, sobre o que tirar de proveito desta merda toda. Quer ver uma? Toda essa campanha de lavar as mãos, se realmente isso for eficiente contra a disseminação de vírus, a médio e longo prazos teremos uma redução incrível no número de infectados por viroses!!! Coronavírus é ruim, mas isso é bom!

Finalizando, não tenho a mínima dúvida de que o mundo será outro. Muitos e muitos padrões reinantes até aqui nas relações entre humanos e nações será profundamente alterado. Tenho 70 anos. Estou na faixa de altíssimo risco (mais de 20% sucumbem à virose). Mas não vou deixar de viver cada dia desta vida que é algo absolutamente fantástica!

Premonição de Raul Seixas
(Obrigado meu irmão Mauricio Nogueira)


6 comentários:

  1. Muito bom ..é por aí! Parabéns Paulo!

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  2. Que alegria e delícia ler um texto destes! É uma bálsamo de sensatez em meio a uma loucura. A maioria não está com medo de morrer e sim de Viver. Vida aos corajosos, viva o espetáculo da vida. Te amo...

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  3. Excelente texto! Relata muito bem!

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  4. Parabéns! Excelente, venho pensando como viveremos após a chegada desse vírus e esse texto reflete muito bem! 👏👏👏👏👏

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