07/12/2016

TEXTO VELHO, DE ABRIL DE 1987

Em resposta a um amigo.

(...),

quem é "o povo"? Esse de quem tanto os políticos falam nas proximidades de eleições? Esse do qual nenhum deles se lembra depois de eleito? Esse de quem o discurso pedetista/brizolista tanto fala? Estou tentando encontrá-lo, mas, confesso, está difícil!, pois a cada vez a que eles se referem, parecem estar falando de um "povo" diferente.

Eu sou povo? Um desempregado, morando na Barra da Tijuca, devendo ainda 10 anos de prestações, esperando que o governo não tome medidas que levem à recessão, pois aí será muito mais difícil conseguir uma maneira honesta de sobreviver... Eu sou povo?

Eu fui "povo"? Um estudante da USP nos terroristas primeiros anos da década de 70, dormindo numa beliche em um quarto com goteiras na pensão da Almerinda? Motorista de uma das kombis do espanhol, fazendo fretes para salvar uns trocados? Ou sentado nos bares nos inícios das noites paulistanas, a discutir, entre chopps e pastel, as utopias de jovens de 20 anos e com um puta cagaço de ser dedurado para a repressão por uma palavra mal-dita a decibéis incautos? Eu fui "povo"? Acho que sim. Estudante universitário, pretensamente de esquerda, obrigatoriamente idealista, duro e que ainda (?) não entrou no sistema, sempre foi usado como "povo".

Fica um problema: se antes eu era e agora não sou mais, em que momento deixei de ser "povo"? O que foi que fiz para não mais pertencer a essa privilegiada categoria "povo"?

E você, é "povo"? Diretor de Arte de uma grande agência de propaganda, ganhado dezenas de vezes o salário mínimo, morador de Ipanema, navegador em seu próprio veleiro nos finais de semana em Angra, pretenso intelectual/militante do PDT a defender a tese do "Deus no céu e Brizola no poder"... Você é "povo"? E não me venha com o "péra'í, não é isso que eu tô falando...".

Será que "povo" é aquela parcela da população que ganha salário mínimo, ou menos, não tem o que vestir, mal tem o que comer e mora em condições sub-humanas? Hummmmm! Foi para estes que construíram o sambódromo? Disseram que "o povo" exigia a Constituinte. Será que estes aí sabem o que é e quanto importa para suas vidas uma Constituição?

Em todo caso, e os outros? Os que ganham meia dúzia de salários mínimos, aqueles ditos de classe média, são "povo"?

Enfim, quais são os parâmetros?  Quando se diz "o povo está passando fome" quem é "o povo"? A sua empregada almoça e janta na sua casa. Ela está passando fome? Não? Então ela não é "povo"? Quando se dizia na época das diretas que "o povo está nas ruas e praças", quem era "o povo"? Pelo que me consta todo tipo de cidadão, das mais diversas atividades, das mais diferentes classes econômicas, estava lá. Então, quem é "povo"?

"O povo", meu Amigo, sou eu quando o político está interessado nos votos do morador da Barra e usa o discurso do "povo da Barra" para conquistar meu apoio. O "povo" é o favelado quando, ao discurso do político, interessa atingir os que moram nas comunidades. O "povo" serão todos aqueles que puderem se entusiasmar com o discurso de um político e levá-lo ao poder, pois, os que não se entusiasmarem, cúmulo da hipocrisia, não fazem parte do "povo".

O sr. Brizola e todos os políticos, não estão, nunca estiveram e nunca vão estar interessados em povo nenhum. Nem ao menos saber o que o "povo" quer. O que lhes importa é chegar ao poder e implantar as ideias que eles "acham" que o "povo" deve querer. Quando o sr. Brizola determina que "o povo" quer escolas, não há manifestação, por mais contundente que seja, que o faça entender que o que o "povo" quer é comer. É saúde. É oportunidade de trabalho para sustentar a si e aos seus.

Agora, meu Amigo, o povo, sem aspas, sem demagogia, somos todos nós, CIDADÃOS que habitam um pedaço de chão qualquer dos 8 milhões de quilômetros quadrados deste país. Somos todos nós que, de alguma forma, contribuímos com a nossa existência para que ele seja uma Nação. Somos todos, de qualquer categoria, sem categoria, de qualquer classe ou sem ter onde cair morto, de qualquer raça, cor, religião, idade ou sexo. Povo somos todos nós que, como cidadãos, queremos ter direitos e oportunidades de realizar nossos sonhos. Ou pelo menos sonhar. Sem a tutela de quem quer que seja. E aí, meu caro, não estamos falando de grupos. Estamos falando de todos nós. Sem exceção. 

O dia em que você se deparar com um político que em lugar de dizer que "o povo quer...", disser "eu quero", ouça-o. Vai valer a pena verificar se você concorda com o que "ele" quer. Tal político, se vier a existir, mostrará ter um virtude: não é hipócrita.



Quase trinta anos se passaram e estamos assistindo a Renan e seus acólitos. É brochante!!!

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