11/09/2016

INABILITADO PARA A DEFICIÊNCIA

Tenho um metro e oitenta de altura. Se tivesse um pouco mais, digamos dois metros e dez como Lucão, poderia ter treinado bastante na juventude e ter me habilitado a concorrer a uma vaga de central na seleção brasileira de vôlei. Apesar desta característica ausente, não sou um deficiente. Fazer o quê? 

Não sou portador de hipermobilidade, como Michael Phelps, portanto, mesmo que tivesse nadado léguas e léguas em treinamentos físico-estressantes, não tornar-me-ia um nadador campeão olímpico. Fazer o quê se não tenho a habilidade de braços e pernas flexíveis como a que ele tem?

Nasci, cresci e vivi sob as condições oferecidas pelo Estado brasileiro. Da falta de qualidade no ensino à de recursos para pesquisa científica, só pude contar com meus próprios recursos, financeiros e intelectuais. Fazer o quê? Houvesse eu nascido com as mesmas habilidades, mas em qualquer dos raros paises desenvolvidos que investem no ócio criativo de pesquisadores da estrutura do DNA como o foram Watson e Crick, talvez tivesse tido, como eles, a oportunidade de ganhar um prêmio Nobel. Quem poderá duvidar? 

Tenho braços e pernas e meus cinco sentidos, apesar da idade, ainda funcionam muito bem. Minha capacidade mental é razoável, admitindo-se a razoabilidade deste próprio texto. Entretanto, minha habilidade com o futebol está a uma distância infinita da habilidade demonstrada pelo Ricardinho no futebol de 5, dos cegos. E da Vivi, a cestinha de nossa seleção paralímpica de basquete que faz parecer tão simples fazer chuá!? Fosse eu sentado em uma cadeira de rodas, teria de arremessar dezenas e dezenas de vezes até que a sorte ou os deuses interferissem a meu favor!!! Acredite, nem horas e horas de treino melhorariam significativamente o resultado. Fazer o quê se tenho pernas e não sou paraplégico?

Qual a diferença entre Lucão, Phelps, Watson e Crick, Ricardinho e Vivi se todos fizeram melhor do que a maioria de todos nós? Invertamos a questão: o que há de semelhante entre todos eles? Reflita. Tente justificar porque resolvemos chamar alguns de deficiente e outros não! 

Vamos deixar a hipocrisia de lado e encarar a realidade. Lucão e Phelps são privilegiados por montes de acasos da vida, mas, principalmente, são naturalmente habilitados para fazer o que fazem e absolutamente inabilitados (ou deficientes?) para dezenas de outras coisas das quais se mantêm convenientemente distantes para não pagar nenhum "mico". Watson e Crick tiveram o privilégio de viverem sob um sistema que potencializou suas habilidades e lhes permitiu esconderem suas inabilidades (ou deficiências?). Ricardinho e Vivi ignoraram suas inabilidades (ou deficiências?) e se concentraram em descobrir o que podiam fazer de melhor com suas habilidades e hoje são incontestáveis vencedores?

Nenhum deles é deficiente. Todos são, tão somente, inabilitados para 99% das atividades humanas. Aliás, como todos nós o somos.

Pense nisso e aceite meu convite: passe a se referir a todos como inabilitados. É mais justo e inclusivo, porque deficiente é a...

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